O amor depois do amor

Crônica de Leandro Iamin, parte do processo de construção do livro Todo futebol que houver nessa vida, em pré-venda durante a Copa.

Uma boa medida para entender a boa onda com a qual a Argentina chegou nesta Copa do Mundo está na visita de La Mona Jiménez, um cantor cordobês muito popular e peculiar. Você pode procurar no Google pra ver o tipaço que é La Mona. No Brasil, disse um amigo que viveu na Argentina, é possível compará-lo ao Bel Marques, do Chiclete com Banana, aquele da bandana, algo assim. Pois La Mona, cujas canções costumam ser replicadas nas arquibancadas, visitou os jogadores da seleção, fez um pequeno e carismático show para eles, rendeu imagens curiosas, fez todo mundo sorrir, porque Copa do Mundo não precisa ser sisuda. Talvez a Copa do Mundo de xadrez, sim, mas a de futebol, com toda certeza, não. Tem que sorrir na Copa.

Rosário é uma cidade fascinante. Lá estive duas vezes, e um pedaço de mim permaneceu. Uns meses atrás Fito Paez, filho daquela terra, baluarte da música popular nacional, fez um show na maior praça da cidade, que recebeu cerca de 300 mil pessoas. Foi um marco. Fito não tocava em sua cidade, daquele jeito, disponível e de graça, há muito tempo, e as pessoas da cidade se acostumaram a não ocupar as praças, porque Rosário anda machucada, de joelhos, com aqueles problemas típicos de nosso continente, derivados da falta de dinheiro e de uma precária malha política, jurídica, enfim: Lionel Messi, tal como Fito Paez, é cidadão rosarino. Torcedor do Newells, morador de La Bajada, na zona sul, mais especificamente na Rua Israel, e não vou te deixar na roubada: a zona sul de Rosário é mais operária, os bacanas ficam mais lá na norte.  Por que Messi nunca voltou para onde ama e é amado?

Messi preferiu Miami para seus prováveis últimos momentos como atleta profissional. Nunca pareceu realmente perto de uma transferência para o futebol rosarino. Quando, certa vez, em 2023, os boatos ganharam uma silhueta de possibilidade, um mercadinho da cidade, de propriedade da família da esposa de Messi, amanheceu cravejado de balas de revólver. Junto dos projéteis, um cartaz irônico dando boas-vindas e alertando: o prefeito daqui não vai te ajudar. Talvez recado mais enfático não houvesse. O crime organizado já pedia respeito e pedágio. Se Messi quisesse viver de novo em sua cidade natal, não teria os dias idílicos, cheirosos e dançantes, com Fito Paez na vitrola, como poderia sonhar nas noites mais frias do inverno espanhol ou francês. É preciso compreender que Messi tenha preferido o uniforme-pijama cor de rosa do Inter Miami e dedicasse seu tempo a se preparar para a Copa do Mundo enquanto faz o mínimo, ganhando o máximo, por aquele distinto clube.

Mas as pessoas, e as cidades onde elas vivem, têm brio. Rosário tem brio, e lembrou disso enquanto voltavam, as pessoas, andando pelas ruas da cidade após cantarem, às lágrimas, “El amor después del amor”, uma das mais belas da discografia de Fito, que, diga-se, mora em Buenos Aires, não na sua cidade-mãe. Dias antes da Copa começar, Carlos “Indio” Solari, outro músico absolutamente popular na Argentina, um senhor capaz de despertar paixões desgovernadas entre os roqueiros do país, veio a óbito aos 77 anos, sugerindo ao seu público um ensaio mundialista de encontro nas ruas, o que aconteceu com fervor. Uma despedida à altura, ele teve. Indio Solari, Fito Paez e La Mona Jimenez, representantes de estilos – de música e de vida – diferentes de um mesmo país, são o brio daquele lugar, ou ao menos os intérpretes desse brio, dessa coisa de ser uma coisa que não se explica. Messi, autor de quatro gols contra a Argélia na noite de Kansas City, um deles anulado por tecnicidades necessárias ao futebol, já não é mais o intérprete de nada. Ele é o objeto.

Messi se emocionou ao marcar o primeiro dos gols. Na entrevista, disse que andou passando coisas difíceis no campo pessoal. Ele e o técnico dele estão meio chorões. Sinal de que sabem o que está acontecendo. Está acontecendo que Messi já não faz um gol a mais sem que se pense que tem um jogo a menos. A consciência é dolorosa.

Quando a segunda onda da pandemia chegou, resolvi mudar de lugar. Iria morar em Rosário, estava decidido. Aprender de vez o idioma, gostar, mas também me decepcionar, com a cidade que tanto idealizo, escrever um livro sobre a infância do Messi, sei lá, só queria sair um pouco. Mas o Brasil, cujo ministro da Saúde era um militar, queria dar cloroquina para as pessoas, e a Argentina, compreensivelmente, não queria receber brasileiros naquele período. Fui então morar em Maceió, acertada e intempestivamente. Lá, sozinho, aplaudi, triste, o desabafo de Messi, enfim campeão pela seleção, no Maracanã, abrindo o destino para tudo que veio depois, tão maior que uma Copa América com estádio vazio. Voltei a aplaudir a tela na noite de Argentina 3×0 Argélia. Não sem alguma melancolia, pois, como sugere a letra de Fito Paez, a dor também tem o seu perfume. Messi conseguiu que sua história na seleção argentina fosse contada, como se inteira fosse, depois de parecer, após tantas frustrações, sumariamente encerrada.

Messi e a seleção argentina são o amor depois do amor.

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