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O Brasil nasceu da melancolia de Zâmbi

Zambiapungo – o senhor supremo – se entristeceu um dia, cansado da solidão do poder e das tarefas da criação. Cogitava mesmo, o pai maior, interromper o curso do mundo. Faltava alguma coisa que justificasse aquela grandeza toda. Zâmbi, que sabia de tudo, achava que tinha criado todas as coisas necessárias para a vida. Mas estava triste e recorreu aos inquices, voduns e orixás, seus filhos diletos.

Pediu a Zaratempo que inventasse algo para despertar seu interesse e o impedir de desistir do mundo. Tempo criou as estações do ano com todas as suas mudanças. Zâmbi gostou, mas não sorriu.
Zâmbi chamou Katendê e pediu a mesma coisa. Katendê, o senhor das jinsabas (folhas), falou ao pai sobre o poder medicinal das plantas. O deus supremo se interessou um pouco, mas ainda assim não sorriu.

Matamba foi a próxima a tentar alegrar Zâmbi. A senhora das ventanias mostrou a força dos furacões e o baile fabuloso dos relâmpagos. Zâmbi olhou, aplaudiu admirado, mas continuou triste. E assim vieram todos os deuses do Congo. Vunji trouxe as crianças; Angorô inventou o arco-íris; Gongobira deu a Zâmbi um rio de peixes coloridos; Dandalunda chamou as luas que mudam marés; Mutalambô fez um banquete com as caças trazidas das densas florestas; Roxo-Mucumbi forjou ferramentas e adagas no ferro em brasa; Lembá Dilê conduziu um cortejo branco de pombas, cabras e caramujos.

Zâmbi gostou e agradeceu, mas continuou triste.

Até que Zâmbi perguntou se Zaze, o dono do fogo, sabia de alguma coisa que pudesse afastar aquele banzo de melancolia. Zaze, a quem os iorubás chamam de Xangô, consultou o oráculo e imolou um bode branco em sacrifício. As carnes foram repartidas entre as divindades do Congo. Zaze, em seguida, aqueceu a pele do bode na fogueira. Ainda com o fogo, tornou oco o pedaço de um tronco seco da floresta. Sobre uma das extremidades do tronco oco, Zaze esticou a pele do animal e inventou Ingoma – o tambor.

Zaze começou a percutir o couro com toda a força e destreza. Aluvaiá, aquele que os iorubás conheciam como Exu e os fons como Legbá, gingou ao som do tambor de Zaze e, logo depois, todos os deuses do Congo, ao batuque sincopado do Ingoma, fizeram a primeira festa na manhã do mundo.

Zambiapungo gostou do fuzuê do tambor de Zaze e descansou feliz. Era isso que faltava. Zâmbi sorriu.

Um filho de Zaze, muito tempo depois, foi capturado na floresta e jogado no ventre escuro de um navio. Esse negro do Congo chegou, entre correntes de ferro e centenas de outros homens, ao outro lado da calunga grande – na terra onde Zambiapungo era mais conhecido como Tupã.

O filho de Zaze, mesmo entre a dureza das correntes e o cheiro da morte do seu povo, conseguiu levar para o país de Tupã o Ingoma inventado pelo pai.

Ao chegar do outro lado do mar, submetido – e insubmisso – ao horror do cativeiro, o filho de Zaze bateu forte no tambor, convidou para o fuzuê o povo de Tupã e chamou, com a força do ritmo ancestral, os deuses das matas, esquinas e macaias. Eles vieram, atraídos pelo fervor das danças e pelo clamor das festas, e resolveram ficar.

Até mesmo alguns dos que chegaram para dominar a terra foram seduzidos e civilizados pela festa. A generosa festa dos filhos de Zâmbi, nos terreiros grandes do Brasil.

O tambor, filho de Zaze, é o pai do nosso povo.

Luiz Antonio Simas é autor de “Pedrinhas miudinhas”, livro em que este texto foi originalmente publicado.

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Um futebol mais previsível?

A Copa acabou, o Brasil não levou, a França ganhou e o jornalista Augusto Martins fala da sua rendição ao árbitro de vídeo, o tal VAR, que embora considere um atentado à narratividade do jogo, parece ser um caminho sem volta para o que o futebol tem se tornado.

O árbitro argentino Nestor Pitana durante a final da Copa de 2018

Rendição

Esta final da Copa do Mundo marcou o momento em que eu me rendi ao árbitro de vídeo, o chamado VAR. Mais do que isso, acho que começo a me conformar que o futebol não é mais o que era há décadas atrás, e, infelizmente, não vai voltar a ser. E o VAR é mais resultado disso do que causa.

Me explicarei de forma breve, para evitar tornar o meu lamento enfadonho. No ótimo livro “Veneno Remédio: O futebol e o Brasil” (2008), José Miguel Wisnik diz já no capítulo introdutório que o futebol “abre-se, mais do que os demais esportes, a uma margem narrativa que admite o épico, o dramático, o trágico, o lírico, o cômico, o paródico”.

Ele continua: “Nele, o tempo da competição é mais distendido, alargado e contínuo do que no futebol americano, no vôlei, no basquete ou no tênis. (…) Não quero dizer que os outros esportes sejam desinteressantes – muito ao contrário. Mas é que neles, em geral, há um foco mais cerrado sobre cada momento contábil, em que se traduz em números ou em ganho de território o embate frontal de performances e competências. (…), temos uma série de alternâncias de ataques e defesas, de confrontos repicados, individuais”.

Para mim, o VAR é um atentado à “narratividade” do futebol descrita por Wisnick. Se em esportes como futebol americano, rúgbi e tênis é possível encaixar o árbitro de vídeo nas inúmeras pausas previstas, no futebol o VAR é por demais intrusivo e quebra a continuidade do jogo. Como se isso não fosse suficiente, esta Copa mostrou que, com ou sem VAR, as decisões permanecerão subjetivas, passíveis de interpretação e, portanto, polêmicas. Bem… Isso não importa mais. Como disse, eu me rendi. Se nas primeiras rodadas da Copa eu poderia escrever um tratado contra o VAR, isso não vem mais ao caso agora.

No intervalo da final da Copa deste domingo, me veio o lampejo. No primeiro tempo, eu vi a França sem jogar nada marcar um gol de bola parada. Depois, a Croácia, que jogava melhor, mas não criava chances, empatou também na bola parada. No fim da primeira etapa, o juizão se atrapalhou com o VAR e deu um pênalti mandrake para a França, após um escanteio. Pois, bem. Num futebol em que os lances de bola parada são cada vez mais importantes (leio nos sites que esta foi a Copa com mais gols de bola parada) e em que trancar os espaços do campo tem mais valor do que a posse de bola, o árbitro de vídeo não é tão anômalo assim. No futebol do jogo picado, o ritual do juiz correndo para o monitor ao lado do campo enquanto o estádio todo espera o que está por vir não é tão patético assim.

Lembro do livro de Wisnik e não posso evitar de pensar se o futebol não está ficando mais fásico. Não, obviamente, como o vôlei ou o basquete, não que tenha perdido por completo a tal narratividade, mas se não está ficando mais previsível, se não está assim se transformando para pior. Pode ser o nostalgismo típico da velhice me atacando já na meia-idade, mas na próxima Copa eu acho que vou de Netflix.

 

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Uma paixão

Está acabando a primeira fase da Copa 2018 e já estamos com saudade. Antes de começar o mata-mata um texto que dá a dimensão da paixão pelo futebol e das emoções que vêm por aí.

O jornalista e escritor Fábio Fabato conta sobre seu namoro com a Itália e o amor pela seleção Canarinho. E nos lembra que o jogo “é bonito, é nosso, como a Amazônia, os Bois de Parintins, as Cataratas, a Mangueira e a Mocidade Independente”,

Roberto Baggio depois daquele pênalti inesquecível em 1994

 

O balé da perfeição sem arestas

 Aos 35 minutos de um segundo tempo inacreditável – começamos ganhando de dois a zero e a Holanda foi buscar – Branco fez o terceiro gol, de falta, e transformou aquela peleja de quartas de final da Copa de 1994 no confronto boleiro de minha vida. Pleno de signos, símbolos, variações, tons, cores, ápices, barrigas, cumes, gozos, dramas, choros, um épico de forno e fogão, daqueles que honram a condição de partida de Copa do Mundo. Vinte anos depois de perder para a notável Laranja Mecânica holandesa na semifinal de 1974, uma devolução com juros na carona de uma patada mágica e improvável, quase do meio de campo. A partida com sol na moleira no Cotton Bowl, em Dallas (EUA), pôs fim a um violento drama na consciência daquele então moleque de pernas finas, ombros curtos e companhia inseparável da bola de couro e chuteiras já gastas, presentes do paizão flamenguista. O segundo dos dramas, cá entre nós.

O primeiro era o de não ter Zico como ídolo, apesar do desejo paterno. Não vi o Galinho jogar no Mengão, questão etária mesmo, e foi Júnior Capacete, o Leovegildo “vovô garoto”, a minha primeira referência, obra do título nacional de 1992 do rubro-negro carioca. Mas isto é lembrança para outra prosa, talvez em bar. Minha questão complicada em Copas e tema primeiro desse troço aqui era a Itália. O campeonato anterior, o de 1990, na terra da bota, é o primeiro de que me recordo. O Brasil caiu cedo, nas Oitavas, gol do argentino Caniggia em duelo esquecível com nossos hermanos. Dançou a Canarinho, mas eu continuei minha aventura pioneira pelas dores e delícias de um Mundial de futebol. Segui o baile, antigo televisor Philco de válvula e imagem levemente esverdeada por companhia, reforçando as fileiras da dona daquela festa, e aí reside o imbróglio: virei fã incondicional do atacante Totó Schillaci, que terminaria artilheiro, e da Azzurra – a despeito do futebol pragmático da geração capitaneada por Bergomi.

A perda do título em casa – a Itália acabou derrotada nos penais também pela Argentina (sempre ela!) e seu guarda-metas Goycochea (a campeã seria a Alemanha) – inaugurou minhas dores futebolísticas. Ostentava enormes… Sete anos! Nápoles ficou muda após aquela partida semifinal, rendendo-se à alteza de Maradona. E eu congelei choroso por incontáveis minutos, sem acreditar no ocaso do escrete de Azeglio Vicini diante de sua gente. No meu aniversário, quatro meses depois da competição, pedi de presente a camisa da Itália, não a do Brasil. A família torceu o nariz, eu dei de ombros, mas logo a paixonite pesou na minha cabeça. Foram necessários quatro anos e uma nova Copa para as coisas se ajeitarem. O gol de Branco em 94 representou, literalmente, o tiro derradeiro no romance tricolore. Mas como o destino – sofisticadamente sacana –, sempre apronta das suas, a final aconteceu justamente contra a Itália. A resolução da história é mais conhecida que roteiro do Titanic: o então melhor jogador do planeta, Baggio (boicotado por Vicini de todas as formas no Mundial ocorrido em domínios italianos), isolou o último pênalti e nós desentalamos o grito de campeão abafado por 24 anos: “é teeeetraaaaaaa!”

Fabato com o capitão italiano de 1990, no jogo da Azurra em Manaus na Copa de 2014

A vida continuou para mim (e muitos!) regida por ponteiros alucinados, segundos, minutos, horas, dias, anos e, sobretudo, Copas – medida de tempo de quatro translações, mas, acima de tudo, a contagem sinestésica e, quiçá, primordial de tudo, combustível da ilusão para seguirmos adiante. Ganhamos de novo em 2002 e perdemos várias vezes, estas na carona de meias ajeitadas em momento errado e das sete chineladas mais doídas em bumbum esculpido a samba: a derrota em casa para a Alemanha é ferida que não fecha, tal qual o Maracanazo de 50.

Fato é que muito além de mera competição, a Copa exacerba sentimentos e exalta um dos nossos maiores produtos culturais e de exportação, talento cunhado em várzea, e de guri, do qual temos obrigação moral de nos orgulhar. Ora, não há equívoco maior do que chutar a canela do mais popular esporte ao cobrar melhorias para o país. Um povo feliz, alimentado, educado e saudável, claro, tem de ser plataforma constante de nação, esta que não pode cerrar seus olhos para sua cultura oligarca e gritantes problemas seculares. Mas jamais ousemos negar a Copa e sua capacidade única de nos vestir de alma.

Não, o futebol não é apenas ópio do povo. É bonito, é nosso, como a Amazônia, os Bois de Parintins, as Cataratas, a Mangueira e a Mocidade Independente, o cair do Sol no Guaíba, o Cristo, a Paulista, as cidades históricas de Minas, a feijoada, o frevo, Olinda, o mix de sabores, olores e frescores que fazem desse torrão um Gigante, a despeito de nossas questões existenciais por demais adolescentes. Perfeição sem arestas que une moleques de oito a oitenta, a bola é, sim, um símbolo pátrio. Que o Brasil coloque sempre sua gente na cara do gol, mas jamais se envergonhe das canetas inquietas e senhoras do bom futebol – elevado, e com justiça!, ao patamar de arte. Com a identidade daqueles meninos apaixonados diante dos televisores, qual este aqui em outrora, não se brinca.

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A final que não jogamos

Está chegando a Copa e nós pedimos para nossos autores contarem histórias do torneio. Abaixo, um texto de Aldir Blanc sobre a final de 2006, aquela entre França e Itália.

 

 

Z de …

Quando Bum-Bum Garoto fantasiou a dieta de greve e manchou para sempre a palavra fome, sua digna esposa, Rosinha Gigoga, espumou sobre “a ira de meu Deus” e ainda lançou um raio que a parta em nossa língua: “…enquanto meu marido se definha”. Recebi uma carta indignada de minha prima de Honório Gurgel, Aparecida Josefa, a Cidefinha. Um trecho “Sou pobre, mas honesta e não me conformo. Não mereço ter meu apelido em boca de cobra”.  Registro o fato porque Ceceu Rico aprontou uma surpresa na final da Copa. Trouxe a Cidefinha pra ver a pelada entre França e Itália, com o amásio (lá dela), o paramilitar Zilmério, vulgo Zinho, feito aquele jogador-enceradeira do passado. Eu entornara de com força, uma noite antes, no aniversário de Fausto Wolff , o Lobo das Esquinas, e bebia com parcimônia, durante a peleja, latas de Itaipava, o licor de melão do Serginho, a cachaça presenteada pelo Ilmar Carvalho, batidas caseiras da Mari… Quando Zinedine Zidane deu a antológica marrada na vaca italiana, minha prima emitiu uns ruídos gorgolejantes, revirou os olhos e, após vários e prolongados tremeliques, tombou ao chão, desmaiada. Ceceu, que teve no passado algum contato com urgências, despejou-lhe uma talagada de batida gogó abaixo. Ela melhorou. Visivelmente constrangido, Zilmério resmungava:

– Que coisa. Parecia a tal convulsão do Fenômeno em 98.

Ceceu, Mari e eu trocamos olhares cúmplices. Não restava a menor dúvida: prima Cidefinha teve um múltiplo orgasmo daqueles!

Dizem que, na mesma noite, desconfiado, Zilmério, em homenagem à Azurra, bancou o Grosso:

– Ataque, né? Eu sei de que qui tu tá precisando…

O ato sexual, vigorosíssimo, foi ouvido em Del Castilho. Cidefinha, em êxtase, gemia:

– Ai, Zi… Isso, Zi…

Quando Zilmério, esbagaçado, pegou no sono, minha prima ainda suspirava:

– Valeu, Zi… dane!

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Tá chegando a hora

Finalmente vai começar a Copa e para esquentar um texto de Marcelo Moutinho sobre essa ansiedade que só o Mundial de Futebol desperta. Quais serão os lances inesquecíveis? Os jogos mais feios? E os mais bonitos? E o gol de placa, será de quem? A maior goleada? O maior vexame?

Bola pro mato que o jogo é de campeonato!

 

O gol mais bonito de 2014: o peixinho do holandês Van Persie

 

 

Olaria x Madureira em Moscou

Temos um time, como as eliminatórias e os recentes amistosos comprovaram. E, ao contrário de anos anteriores, não há nenhuma grande treta futebolística no ar. Nenhum muxoxo porque fulano ficou de fora ou sicrano foi vítima de injustiça histórica que culminará na humilhante derrota. A rigor, as antiquadas recomendações russas sobre a “demonstração de afeto homossexual” e os hilários vídeos de divulgação do torneio dão mais assunto do que a convocação dos jogadores. Resta, portanto, enfrentar mais algumas horas de pasmaceira — entrecortados pela chatíssima polêmica sobre ou torcer ou não pela Seleção — enquanto o leite ferve na panela.

Pois não vejo a hora de começar a peleja propriamente dita. Bola pro mato que o jogo é de campeonato. De Copa do Mundo. E então engrossar o coro da minoria — 130 milhões contra o resto do mundo, reforçado pela turma disposta a remar na contramão — na expectativa pelo hexacampeonato, com a disposição de trocar o melhor livro por um memorável Arábia Saudita x Egito. Sim, porque há vida além da Seleção Brasileira, e nem sempre o embate mais interessante do campeonato acontece entre gigantes como Argentina e França.

Quem já assistiu a um Madureira x Olaria na Rua Bariri bem sabe quão tocante é ver aquele trombador, com quem a bola não quis papo durante toda a partida, deslizar de carrinho pelo barro, esticar a rede adversária e correr, com o joelho esfolado e sem pensar em departamento médico, em direção à torcida que comemora como se fosse o título do Brasileirão. Nesses jogos, à margem da exuberância óbvia que exalam os gigantes das quatro linhas, a beleza nasce justamente do precário — do uniforme mal desenhado, da bizarra furada do zagueiro, da magreza subnutrida do lateral, do esforço comovente do camisa dez em honrar o número ao qual legou o rei Pelé uma mística inequívoca.

Guardadas as devidas e muitas proporções, na Copa que se aproxima também teremos alguns anticlássicos por (falta de) excelência. Que venham, então, Espanha x Portugal, Inglaterra x Bélgica, Alemanha x México, os confrontos de monta. Mas também Panamá x Tunísia, Irã x Marrocos, Senegal x Japão. Que venham as estrelas Messi, Cristiano Ronaldo e Neymar. E, a seu lado, os famosos ‘quem’. Craques absolutos e pernas-de-pau de pelada no Aterro, lado a lado.

Com a compreensão previamente rogada às pendências do cotidiano, eles povoarão por um mês as telas das TVs e de nossa imaginação. Nem que seja para lembrar que perder ou ganhar é do jogo. E que o futebol, assim como a vida, é feito de gols de placa e furadas vexatórias.

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Copa 2018

Está chegando a Copa e nós vamos contar algumas histórias do torneio. Abaixo, um texto de Luiz Antonio Simas sobre o Mundial de 1982.

 

O SORVETE QUE EU NÃO TOMEI

Ganhar uma copa do mundo é menos prova de competência que confirmação do destino — e o nosso destino, em 1982, era levantar a taça, confirmando a máxima de que a “nêga é minha, ninguém tasca, eu vi primeiro”. Era, além disso, a chance de dizer aos coroas que tinham visto o escrete papar a Jules Rimet em 1970: eu também vi o Brasil campeão do mundo.

Imaginei o gol como nosso destino manifesto e tive um misto de pena e desprezo pelo resto do planeta. A humanidade, sem a amarelinha, era um aglomerado de gente vivendo longe da zona do agrião. E não tínhamos apenas Zico, Falcão, Sócrates e o Júnior cantando “Voa, Canarinho”. Exu, Tupã e Nossa Senhora Aparecida jogavam com a gente, conforme minha avó me explicara.

Até que veio a Itália e Paolo Rossi. Jogo fácil. Mera formalidade temperada de arte e redes estufadas. Quem disse? Eles foram fazendo gols, nós fomos empatando. O primeiro queijo é dos ratos, a primeira esmola é dos pobres e o futebol é que nem o bento que bento é o frade: o seu mestre mandou o Brasil ser campeão. Não obstante, levamos um bolo.

Perdemos.

— Vou encher a cara, disse meu avô.

Eu, fã do velho, também. Peguei as merrecas da mesada, guardadas com afinco para uma tarde de amores urgentes em certa mansão da Rua Alice, que nunca frequentei, e entrei na lanchonete pisando forte, feito pistoleiro num saloon do Velho Oeste. Caixão não tem gaveta, eu vou é torrar o dinheiro todo, já que o mundo não é mais o mundo:

— Quero um sundae grande de flocos com muita castanha.

A garçonete, aos prantos, não falou nada. Preparou o sundae e foi chorar mais um pouco a eliminação. Peguei a colher e fui dar a primeira mordida. Não consegui. Não, eu não sentia tristeza. Eu não sentia coisa nenhuma. Tudo era desencantamento — e se não faz sentido, vou sentir o quê? Fiquei ali bem umas duas horas. O sorvete derreteu.

Imaginei o estádio escuro e deserto. Um estádio vazio, com os refletores apagados, é desde então a imagem mais triste e abandonada que me ocorre para definir a não vida. Ausência de tudo, inclusive da morte. A amiga psicóloga da tia-avó disse:

— Esse menino está deprimido.

A bola, se falasse, diria:

— Esse menino não está.

Será isso a ausência da alma? Não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe. Sou mais chegado às alegrias. O diabo é que, vez por outra, eu dou de sonhar, como ontem, com o sorvete derretendo.

*****

Este texto faz parte de “Ode a Mauro Shampoo e outras histórias da várzea”, livros que o Simas lançou com a gente em 2017.

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Sensação térmica

Esta crônica integra o livro “O Rio do Moa”, de Moacyr Luz.

Nessa minha vida de bússola descompassada, morei, criança em Bangu. Não havia sensação térmica. Era imersão tórrida.

Quase esquizofrênico, zanzei também por Copacabana, no tempo em que a Avenida Atlântica ainda seguia em mão dupla, lentos carros do Leme ao Posto 6, rés da TV Rio e seus primeiros estúdios. Os turistas usavam um bronzeador vermelho aditivado, um urucum-bull no formato de travesseiro.

Na volta ao hotel, metade da pele assada e tatuada para sempre no quarador das esteiras de palhinha, o que sobrava, ardia mais que pimenta malagueta, daquelas do Pará. O sujeito fritava a olhos nus, não era sensação. Alguns sentavam ao redor das barraquinhas de refrigerantes implorando por uma barra de gelo na cabeça. Os artistas de plantão frigiam ovos no asfalto pra lá de selvagem. Pedido feito: gema dura, por favor!

Bangu registrava a máxima.

Das ruas desenhadas com pó de pedra, o calor produzia um delírio de fluidos em chamas.

Não era sensação apenas, qualquer um derretia ao meio-dia.

O ventilador, tonto de tanto girar, pipocava no piso da sala. Mais barulho que eficiência, suas palhetas lembravam hélices de um antigo Electra da ponte aérea.

Recentemente criaram e distribuíram nas ruas os termômetros com anúncios publicitários. Cá pra nós, aquelas torres com números digitais, apresentando graus centígrados dignos de recordes enquanto as autoridades climáticas, desmentindo a quentura, amenizam com leques o teu suor, agride.

Parênteses.

Outra categoria que usualmente contraria os dados de um verão abrasador é a de taxista.

Você precisa implorar, desidratado, pra ligar o ar condicionado e ainda escuta um grunhido enquanto os vidros são fechados.

Voltando à vaca quente, a novidade é a sensação térmica.

Com ares de fim de mundo, o sujeito, quase um beduíno do Saara, se achando rejeitado no purgatório, anota a última frase do apresentador com um dedo no mapa virtual: “Na verdade, é apenas uma sensação térmica!”.

Recordo um vizinho que, pego pela Lei Seca com um litro de uísque na cabeça, hálito de barril de pólvora, se desculpa ao agente da operação: “Meu camarada, parece que eu bebi, né? Mas é só a sensação. Tô bonzinho!”.

Mais um caso pro Santo, o protetor.

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PTSC#27

foto Luis Henrique 2014É possível que o leitor reconheça Mauro Iasi como professor da UFRJ. Ou mesmo como dirigente partidário do PCB, partido pelo qual foi candidato a presidente em 2014. Ele é também um dos autores desta casa. Mauro organizou “Ecos do golpe – a persistência da ditadura 50 anos depois” e publicou conosco na antologia “Cultura, democracia e socialismo”. Pois Iasi é mais que isso, de fato um ser complexo. Na entrevista a seguir, apresentamos o poeta, autor de “Outros tempos”, nosso novo lançamento.

Nestas perguntas triviais Mauro fala de poesia, do próprio livro e, como não podia deixar de ser, analisa a conjuntura. Afinal, o que espera o poeta das eleições e da Copa do Mundo?

_Você é dirigente partidário, professor, poeta e foi candidato a presidente. Quem é Mauro Iasi?
No momento pai do Camilo (do Gi e da Má) e em breve avó do Tom. Sou um educador popular, emprestado para a Universidade, e, quando crescer, quero ser poeta e comunista.

_Por que você diz que “Outros tempos” reúne poemas “noturnos”?
Meus poemas sempre foram militantes, comprometidos com a luta e, por isso mesmo, com a paixão e a vida. Acontece que, às vezes, a vida fica difícil, como agora. São tempos de retrocesso, de abismos, de derrota e a poesia reflete tudo isso. Mas, é de noite que a gente sonha, não é?

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UM LIVRO

“Versos não se escrevem para a leitura de olhos mudos. Versos cantam-se, urram-se, choram-se (…) Repugna-me dar a chave de meu livro. Só quem for como eu tem essa chave”.

Mário de Andrade. Poesias completas.
Edição crítica de Diléa Zanotto Manfio.
Edusp, 1987

_Toda poesia é política?
Toda poesia viva é política, toma partido, escolhe seu lado, sofre, cicatriza. Poesia exige sensibilidade diante da vida e aquele que consegue ficar imune diante da injustiça do mundo, deste pais oligarca e escravista, tem alguma coisa de errado. O caráter político da poesia não se encontra só naquilo que ela diz, em seu conteúdo, a poesia é também forma, ritmo, imagem e sensação que se sugere àquele que lê. Ela provoca e incita o mundo a mudar para continuar vivo.

_Você tem um poeta preferido?
Fica difícil dizer um só. Fui criado lendo Neruda, Guillén, Vallejo, descobri como que tomado por um furacão o enorme Maiakovski e Brecht. Mas quem primeiro me mostrou a força que a poesia tem e me fez levantar do chão da vida, foi Drummond. Agora, quem é brasileiro e da minha geração logo aprendeu que poesia vem junto com a música e daí meus poetas são Aldir Blanc, Victor Martins, Cacaso, Fernando Brant, Chico Buarque entre tantos outros.

_Você arrisca previsões para 2018? O Brasil ganha a Copa? Quem será eleito presidente?
Difícil. Vai ter muita luta e muita coisa vai mudar. No momento estou torcendo contra, contra a Reforma da Previdência e o saco de maldades do usurpador. Desde Johan Cruyff eu torço para a Holanda, ela está fora da copa este ano, mas não importa, torço mesmo assim. Não seria interessante se quem estivesse disputando por fora das regras da FIFA acabasse ganhando? Viva o Poder Popular, quem sabe?

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Promoção de carnaval

Entre os dias 1º e 15 de fevereiro o site da Mórula está com um código promocional de 30% de desconto para os livros relacionados ao carnaval, “Pra tudo começar na quinta-feira”, de Luiz Antonio Simas e Fábio Fabato, e “O samba serpenteia com o Escravos da Mauá”, de Carol Couto.

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o sambapra tudo

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Sururu no Maracanã

O Flamengo joga nesta quarta-feira a final da Copa Sul-Americana com o Independiente, equipe argentina que levou a melhor na primeira partida da disputa. Os dois times repetem a decisão da Supercopa da Libertadores de 1995. Naquela ocasião, o Independiente também venceu o primeiro jogo e a vitória rubro-negra no Maracanã não foi suficiente para virar o placar.

O jogo do Maraca ficou marcado na memória de muitos flamenguistas que lotaram o estádio e seu entorno. Rodrigo Ferrari, livreiro, dono da Livraria Folha Seca e personagem fundamental do Rio de Janeiro, contou sobre aquela noite em crônica para o livro “O meu lugar”, editado pela mórula em 2015. Vale a pena conferir!

 

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Sururu no Maracanã

Rodrigo Ferrari

 

Saltou na praça da bandeira, pois o trânsito àquela altura estava insuportável. Passou correndo entre os carros parados, as buzinas comendo soltas, um barulho dos diabos, um monte de gente correndo e gritando Mengo, Mengo, Mengo! Uns poucos desavisados que não tinham nada a ver com o jogo passavam por ali sem querer, ficando putos da vida. Esses aprenderam: dia de Flamengo no Maraca, melhor é dar a volta.

Mas ele corria apreensivo, pois ainda não tinha o ingresso e sabia muito bem o que isso significava. Com aquele tanto de gente ali a bilheteria devia estar uma loucura! O radinho rubro-negro na mão esquerda ia apertado, os passos acelerados no compasso do coração, na cabeça apenas a esperança de que todo o esforço não fosse em vão, que o time correspondesse…

Ia sempre ao Maracanã, desde que jogasse o Flamengo. Nos domingos de jogo já acordava diferente, todos os pensamentos giravam em torno da partida, queria ler os jornais, ver os noticiários, estar por dentro… O Mengo era tudo, as esperanças, desilusões, aspirações… Quando comemorava um gol na arquibancada parecia um deus, voando pelos céus com asas de euforia, abraçando desconhecidos irmanados pelo mesmo sentimento de grandiloquência.

Mas agora só pensava na galera em volta da bilheteria. Aquilo lhe tirava o sossego. Devia ter comprado ingresso antes, como sempre, mas dessa vez não deu. Subiu a pé o viaduto Oduvaldo Cozzi, pois adorava aquela visão do cume da ladeira e adorava descer correndo a rua, facilitado pelo engarrafamento homérico. Quando bateu o olho lá de cima correu-lhe um frio na espinha: a bilheteria era uma muvuca só!

O radinho vinha colado ao ouvido, mas não prestava atenção nenhuma no que os comentaristas diziam. Desligou o aparelho e chegou perto dos camelôs que vendem cerveja e camisas em volta dos guichês. A massa era inacreditável! E pensar que o Flamengo era um dos últimos colocados no Campeonato Brasileiro e aquele era um torneio caça-níquel qualquer. Precisava golear o time argentino, então a diretoria diminuiu o preço dos ingressos e convocou a torcida.

Pensava na galera e se emocionava. Todos tinham aceitado o chamado naquela quarta-feira à noite, a Praça da Bandeira estava intransitável, um tumulto federal. Ouvira no rádio a previsão de cem mil pessoas e ficara abismado. Esse clube despertava paixões inenarráveis. Cada crioulo, cada dona de casa, cada playboy daqueles tinha um compromisso de fé com as cores rubro-negras e estavam dispostos a levar aquilo às últimas consequências. O Flamengo era tudo pra eles, e eles eram acima de tudo Flamengo!

E no momento eram acima de tudo massacrados. Enfrentar aquela selva pra comprar ingresso era um absurdo! Ficava pensando nos jornalistas e dirigentes falando dos problemas do Maraca sem saber quais são as reais dificuldades e sem tocar no ponto crucial da questão: o tratamento ao torcedor. O verdadeiro torcedor, aquele que sofre nas mãos dos profissionais que se instalaram em torno do jogo, pessoas sem envolvimento com o assunto e que enriquecem com a sua desmoralização.

— Porra, e ainda por cima só três guichês abertos! Isso é coisa de vascaíno, não pode ser! Manda a mãe dele vir comprar, seus…!!!

Não havia fila. Um bolo de gente parada, muitos ainda decidindo se iam encarar ou não, uma gritaria dos diabos… Foi ganhando caminho, passando por alguns indecisos, até parar quando não dava mais pra seguir. Ali ficou naquela dança que a moçada vai fazendo, um passinho miúdo que parece não estar andando, mas que quando se vê não dá nem pra voltar. Os corpos vão se juntando e chega uma hora que todo mundo fica tentando ultrapassar o outro, sem cerimônia nenhuma.

Olhava pros lados e percebia na fisionomia dos outros o desespero que também devia estar estampado na sua. Faltavam três metros para chegar à boca do guichê, mas parecia que não chegaria nunca.

A todo tempo se ouvia: “não empurra, porra”, “ai, eu tô passando mal” ou “eu quero um ingresso, filho da puta!”. Ele ia quieto, sem dar um pio. Já tinha passado aquilo algumas vezes, mas essa era sem dúvida a mais custosa. Foi aí que percebeu que a única maneira de sair depois de comprar o ingresso era por cima das pessoas. Isso mesmo, por cima! Alguns tentavam voltar normalmente, mas não dava, a massa era compacta, não havia mão e contramão. Numa hora de muito esmagamento não se conteve: “calma, porra, não empurra que tá chegando!”. E mordia o lábio, esperançoso.

Ninguém se mexia, parecia que ficariam ali pelo resto da vida. Cada espaço conquistado era milimetricamente ocupado, senão o vizinho já se chegava, não dando moleza. Também gritava quando algum felizardo tentava voltar na marra: “sobe, sobe!!!”. Um gaiato, poliglota, mandava: “up, up!!!”. O cara ficava meio indeciso e finalmente, com o ingresso na mão e a ajuda dos outros, subia.

É certo que não sem dificuldade. Teve um que não chegou nem a comprar o ingresso, lá pelas tantas gritou pra trás:

— Não ‘tô guentando’, quero sair!

Quase rolou uma gargalhada geral. Um tapa só não voou por falta de espaço. O gordinho tava desesperado, e viu que ia ter de subir. Apoiou os cotovelos em alguns ombros e fez toda a força que podia. Não saiu do lugar, seu corpo estava totalmente comprimido pela massa. Algumas mãos surgiram pra ajudar e ele foi alçado e logo depois transportado por outras mãos para fora da multidão.

A saída daquele gordinho fora sensacional. Pulara pra frente, já estava a quase um braço da bilheteria. Ali na boca todo mundo esticava o dinheiro e gritava ao mesmo tempo.

— Vai logo, filho da puta, que eu tô morrendo aqui!

— Cinco! Cinco!

Enquanto ajudava os outros a subir, preocupava-se em arranjar um jeito simples de fazer o mesmo. Já vira que era a única saída e queria resolver aquilo o mais rápido possível. Antevia o momento delirante da aquisição do ingresso e já pensava nos detalhes com que iria contar essa façanha pros outros. A camisa do Flamengo estava encharcada. Teve uma hora em que o radinho, preso na mão esquerda, foi quase esmagado, chegando a fazer crec. Inacreditavelmente, tava chegando…

Encostou a mão na parede e forçou o corpo pra trás, conseguindo um espaço razoável naquela loucura toda. Na boca do guichê várias mãos choravam um ingresso, enquanto o bilheteiro, impassível, parecia que estava no Municipal. O problema da galera não era nem com ele, e pelo que pôde perceber ele atenderia mais rápido os menos exaltados.

Já arquitetara tudo: havia um buraco em forma de meia-lua pra passar o dinheiro na altura da cintura e um quadrado na altura dos olhos. Ia ficar segurando aquele espaço e quando tivesse comprado colocaria o pé no buraco de baixo e, forçando o corpo contra as pessoas, se impulsionaria pra cima. Todos mostravam o dinheiro pelo quadrado e gritavam, ele ficou mirando o olho do sujeito e segurando o dinheiro pela janelinha de baixo, sem dizer nada, só mostrando a grana e olhando firme. Deu certo, o cara terminou de dar o troco pro outro e foi direto no dele. Só não contava com a indagação do bilheteiro:

— Quem foi que me deu esse dinheiro aqui por baixo?

Quase meteu a mão dentro do guichê e a sorte foi que ninguém gritou junto. Gelou por um segundo só de pensar que outros poderiam requisitar o seu ingresso. Já imaginou, naquele sururu! Segurou o radinho com força, espremeu o ingresso entre os dedos da outra mão e tentou colocar o pé no buraco. Ia subir direto, não ia nem olhar pro lado. Levou um cutucão do cara de trás e não alcançou a altura. Botou foi a canela mesmo, que neguinho já tava querendo sumir com ele pra ocupar o espaço, fez força pra cima e sentiu a galera empurrando. A canela esfolada seria a prova do esforço e um troféu merecido. Colocou o outro pé e deu um pulo, caindo em cima de todo mundo.

Estava feliz, uma felicidade vermelha e preta, um sentimento que ele já tinha experimentado e que considerava privilégio só de rubro-negros. Não concebia um vascaíno ou tricolor poder sentir essa alegria. O futebol só tinha graça pelo Flamengo, e mesmo a Seleção só servia se tivesse um jogador do Flamengo como craque.

Missão cumprida, virou de barriga pra baixo e olhou pra cara dos outros, apavorados, sem saber se deveriam ou não estar ali, com um outro deitado na cabeça deles. Por um momento ficou parado, sem ninguém deslocá-lo, então gritou:

— ‘Vambora’, gente, agora é com vocês!

Todo mundo que podia se mexer levantou os braços e foi espalmando seu corpo sobre as próprias cabeças, ele radiante, sendo carregado até o fim da muvuca pra aterrissar com as mãos no chão e sair comemorando como um doido o feito inesquecível. Era Flamengo, era um herói! Daria tudo pra alguém ter visto! Olhava pros lados sem saber direito pra onde ir. A canela sangrando estava ali, graças a deus, para não deixá-lo mentir.

Fizera sua parte, agora era com o time.

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Cosme e Damião

Dia 27 é dia de São Cosme e Damião e nós celebramos com um texto de Luiz Antonio Simas, em homenagem aos santinhos. O texto foi publicado no livro “Pedrinhas Miudinhas: ensaios sobre ruas, aldeias e terreiros”.

 

São Cosme e São Damião

Sou devoto amoroso do Brasil e dos seus encantamentos. Nesse ponto, e dou o braço a torcer, quem está certo é o velho compositor baiano: “quem é ateu e viu milagres como eu”… E nossos milagres, camará, são muitos, temperados por tambores e procissões; pela Virgem no andor, o caboclo na macaia e o preto velho no gongá. Somos, os brasileiros, filhos do mais improvável dos casamentos, entre o meu compadre Exu e a Senhora Aparecida – a prova maior de que o amor funciona. E Tupã, que se vestiu com o cocar mais bonito para a ocasião, celebrou a cerimônia entre a cachaça e a água benta.

Uma das nossas mãos está calejada pelo contato com a corda santa do Círio de Nazaré – a outra tem os calos gerados pelo couro do atabaque que evoca as entidades. As mãos do Brasil e do seu povo. Nossos ancestrais passeiam pela vastidão da praia sagrada dos índios de Morená, retornam à Aruanda nas noites de lua cheia, silenciam no Orum misterioso das almas e florescem encantados nas folhas da Jurema. Os guerreiros de nossas tropas trazem a bandeira do Humaitá, o escudo de Ogum e o estandarte da pomba branca do Divino Espírito Santo – a mesma pomba que pousou na ponta do opaxorô de Obatalá. São essas as nossas divisas de guerra e paz; exércitos do Brasil.

E digo isso porque chegou o dia de Cosme e Damião. Dia brasileiro dos santos estrangeiros e orixás africanos. Dia de igreja aberta, missa campal, terreiro batendo, criança buscando doce, amigos bebendo saudades e aconchegos. Dia de comer caruru na rua. A tradição brasileira de Cosme e Damião é a mais festiva do mundo. O bom, nessas horas que antecedem as folganças dos santos gêmeos, é vadiar no clima da folia, tomando pinga e ouvindo umas cantigas bonitas sobre os protetores dos meninos. É hora de bater samba de roda pra Dois-Dois, na palma da mão e no ponteio da tirana.

Aqui em casa toquei a alvorada lembrando as cantigas mais bonitas que conheço em homenagem aos gêmeos. É de comover pedra! Quando ouço as louvações pros santinhos, tenho forte desconfiança de que ainda morro um dia de tanta belezura do Brasil – um amor que não se explica, feito cachaça da boa, jabuticaba, sorvete de cupuaçu, beira de rio, gol do meu time, cerveja gelada, mulher amada, amigos do peito e caruru de Cosme. E que no dia de cantar pra subir, um samba de roda desses me carregue ao encontro dos meus pela Noite Grande.

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Mórula na FLIP 2017

Confira nossa agenda na Festa Literária Internacional de Paraty:

_Quinta, 27/07, às 15h: Alberto Mussa, Felipe Botelho Corrêa e Luiz Antonio Simas, convidados da Flip 2017, vão reviver os tempos em que Lima Barreto se sentava no Café Papagaio. A mediação da conversa é de Mariana Filgueiras e o papo acontece no Café Paraty, rua do Comércio, 253.

_Sexta, 28/07, às 15h: dia de ouvir Luiz Antonio Simas e Beatriz Resende revisitando os lugares do Rio de Janeiro por onde Lima Barreto passou, através de personagens de seus romances e contos. “Subúrbios”, no Auditório da Matriz.

_Sábado, 29/07, às 18h: Marcelo Moutinho, Henrique Rodrigues e Fernando Molica batem um papo e lançam “Conversas de Botequim” no Encontros Malê em Paraty. Na Rua do Fogo, 04 – Centro Histórico.

Também no sábado, o livreiro Rodrigo Ferrari fará da Rua da Matriz uma filial da Rua do Ouvidor. A partir das 18h, a versão itinerante da Folha Seca oferecerá ao público uma seleção cuidadosa de obras relacionadas à cultura carioca. Os autores que sempre estão pela Folha Seca, fazendo dela a livraria mais charmosa do Rio de Janeiro, também estarão por lá. E às 21h o samba come solto!

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‘Não é fácil fazer algo pra quem você admira’

As capas da coleção Aldir 70 são ilustradas pelo cartunista Allan Sieber. Quando convidamos o Allan, apresentamos como referência as capas desenhadas por Mariano para a extinta Codecri, editora do Pasquim, que publicou “Rua dos Artistas e arredores” e “Porta de tinturaria”.

“Na verdade, apesar da referência, eu tentava fugir o máximo possível das capas da primeira edição, para não parecer uma releitura”, conta o ilustrador. “Me guiava pelas coordenadas dos editores e pelos textos dos livros, mas sempre evitando dar uma referência de algum personagem. Acho importante o leitor ter a liberdade de inventar, de imaginar por conta própria seu personagem”, diz Allan sobre o processo criativo.

Uma das dificuldades apontadas é que, segundo ele, não é simples fazer um trabalho para quem você tem admiração: “Eu sentia uma certa trava, justamente porque eu gosto muito do Aldir. Uma certa responsa em fazer as capas dos livros dele, de quem eu gosto muito, isso traz dificuldade”.

Sobre sua relação com Aldir, Allan conta que o conheceu pessoalmente no início dos anos 2000 quando estava produzindo, junto com o chargista Leonardo Rodrigues, o curta de animação Santa de Casa, que é baseado na crônica Santa milagrosa do compositor e cronista. A crônica é uma das que integram o livro de inéditos Direto do balcão. Para a trilha sonora do curta Aldir ainda compôs um samba inédito.

Na pré-venda da coleção Aldir 70, disponibilizamos inicialmente duas capas desenhadas por Allan – peças únicas, não reprodução. Mas com o sucesso da recompensa, voltamos ao ateliê do cartunista para saber se ainda havia algum original que ele pudesse disponibilizar para a campanha. De lá voltamos com algumas preciosidades.

Ainda é possível adquirir a ilustração que ele fez para “Porta de tinturaria”, esta:

allan_porta
E além disso, criamos uma nova faixa de recompensa, para os desenhos que serviram de base para “Rua dos Artistas e arredores” e “O gabinete do doutor Blanc”. Há também a primeira ilustração feita para o “Porta de tinturaria”, que não foi aprovada pelos editores, mas é igualmente preciosa.

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Ilustração não aprovada para “Porta de tinturaria”
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Parte da ilustração de “O gabinete do doutor Blanc”
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Parte da ilustração de “Rua dos Artistas e arredores”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Pré-venda da coleção Aldir 70 está disponível no Catarse

Aos fãs de Aldir Blanc: a pré-venda da coleção Aldir 70, com cinco livros do autor, já está no ar no Catarse.

Aldir Blanc é um dos mais importantes compositores da música brasileira. É também médico psiquiatra e cronista, reconhecido pelas bem-humoradas histórias e personagens da zona norte do Rio de Janeiro.

Em 2016, Aldir completou 70 anos e a Mórula, editora carioca e independente, lançou a coleção Aldir 70 para comemorar a data. Os dois primeiros volumes da coleção – O gabinete do doutor Blanc Rua dos Artistas e arredores – foram lançados em 2016. Agora, contamos com a sua ajuda para completar a série com os três livros que faltam – Porta de Tinturaria, Vila Isabel, inventário da infância e Direto do Balcão. E isso, antes que o Aldir complete 71 anos.

 

Saiba mais e participe:

 

 

 

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O Papão da Curuzu

* texto de Luiz Antonio Simas, que integra o livro “Ode a Mauro Shampoo e outras histórias da várzea“.


 

O "Papão da Curuzu", Paysandu
O “Papão da Curuzu”, Paysandu

Somos, os brasileiros, pentacampeões mundiais de futebol. Perguntaram-me, certa feita, qual foi a maior das vitórias do futebol tupiniquim. A final contra a Suécia, em 1958? O saco que metemos na Itália, em 1970?

Matutei sobre os feitos do escrete, descartei as finais de 1962, 1994 (essa foi menos emocionante que a Missa do Galo daquele ano) e 2002, cogitei citar o baile que demos na Espanha na fase final da Copa de 1950, mas, na hora de responder, falei de forma automática, feito caboclo de umbanda:

— A maior vitória da história do futebol brasileiro não foi obtida pela seleção. Foi o vareio que o Paysandu de Belém deu no Peñarol do Uruguai em 18 de julho de 1965: 3 a 0 pro Papão no Estádio da Curuzu.

É verdade. Foi mesmo um feito digno de figurar nos anais da história. O Peñarol à época era uma máquina. O time titular era praticamente a seleção do Uruguai: Mazurkiewsk, Forlan, Abbadie, Pedro Rocha e Caetano, por exemplo, envergavam a camisa preta e amarela do time platino. Eram, os gringos, bicampeões da Libertadores da América, bicampeões uruguaios e campeões mundiais interclubes.

Pois o Paysandu deu um vareio nos homens. Com o ex-tricolor Castilho fechando o arco e um ataque encapetado — Vila, Milton Dias, Pau Preto e Ércio —, o Papão não tomou conhecimento da rapaziada do churrasco, jogou pra dedéu e liquidou a fatura de forma inapelável (Ércio, Milton Dias e Pau Preto fizeram os gols).

Ouso dizer que, em se tratando de confrontos na América Latina, o que o Paysandu fez com o Peñarol reduz a Batalha Naval do Riachuelo a um evento tão dramático quanto um passeio de elevador em um prédio de cinco andares.

O triunfo do Paysandu virou Belém de cabeça pra baixo. Houve carreata, ponto facultativo, desmaios, infartos, pororoca no Rio Guamá, pato no tucupi e o escambau. O Liberal, o maior jornal do Pará, estampou na manchete: “Triunfo do Papão é a vitória do Brasil”. Estava vingado o maracanazzo de 1950.

Daqui do Rio, basbaque com o triunfo, Nelson Rodrigues — garantindo que assistira ao jogo pelos rumores do vento — não deixava por menos em sua crônica no jornal “O Globo”: “O Paysandu tem camisa. Sendo preciso, sua camisa deixa de ser um trapo qualquer para erguer-se como um estandarte em chama […]. O Peñarol saiu de lá com as orelhas a meio pau. Três a zero! Um banho completo!”.

Uma grande história desse jogaço aconteceu nas arquibancadas. Um dos torcedores presentes ao embate, o fuzileiro naval Francisco Pires Cavalcanti, teve um treco durante a partida. Pires era músico da marinha e compositor, mas não conseguia compor nadica de nada há uns vinte e tantos anos. As musas do poeta estavam de férias.

Entusiasmado com o desempenho do seu Paysandu, o fuzileiro Pires teve uma inspiração súbita, uma espécie de estalo de Vieira. Num estado de transe que só o futebol proporciona, começou ali mesmo, nas arquibancadas, a compor uma marchinha em homenagem ao Papão e ao chocolate paraense nos uruguaios.

Encerrado o jogo, um eufórico Pires cantava que nem doido para não esquecer a melodia que acabara de fazer: “Uma listra branca, outra listra azul, essas são as cores do Papão da Curuzu”. O fuzileiro acabara de compor a ciranda, cirandinha do futebol do Pará.

Além, portanto, da vitória acachapante contra os gringos, aquela tarde de sol em Belém viu nascer um dos hinos mais simpáticos dos clubes de futebol do Brasil. Para muitos, inclusive, a marchinha de Pires é o hino oficial do Papão. Não é, mas é como se fosse.

Vou ser sincero: o hino oficial do Paysandu não me comove. Parece uma ladainha de igreja. Já a marchinha do fuzileiro Pires é boa pra burro. Cita o baile no Peñarol e ainda sacaneia o maior adversário, o Clube do Remo, ao se referir a uma biaba que o Papão deu no rival (um acachapante 7 a 0) no verso “Pintou o sete numa tela azul”. É isso, camaradas. Viva o glorioso Paysandu e viva o fuzileiro Pires, caboclo amazônico encantado nas arquibancadas da Curuzu toda vez que a torcida do Papão entoa sua marchinha arretada.

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Sonhos, derrotas e conquistas da várzea

O jogador Mauro Shampoo
O jogador Mauro Shampoo, um dos homenageados no livro

As 32 crônicas de “Ode a Mauro Shampoo e outras histórias da várzea” são uma forma de resistência encontrada pelo autor, o historiador Luiz Antonio Simas, ao futebol moderno, tratado como negócio e espetáculo. Nos textos, que valorizam os chamados “times pequenos”, as derrotas são tão valorizadas quanto as conquistas, e a várzea é considerada qualquer terreno onde o futebol inventa a vida.

Crítico aos termos “jogador diferenciado”, “peça de reposição”, “assistência”, “arena multiuso” e “espectador”, Simas faz um paralelo entre as culturas do futebol com as do botequins atuais: “O processo de falência do futebol e do botequim como cultura reduz o jogo e a ida ao bar aos patamares de meros eventos; para delírio das caravanas que parecem percorrer os bares com a curiosidade dos antigos imperialistas em incursões civilizadoras e dos espectadores que ficam fazendo selfies em estádios de futebol enquanto a bola rola. Me espanta, ainda, como isso se reflete no vocabulário, que perde as características peculiares do torcedor e do bebum (o correto agora é chamar de “butequeiro”) e se adequa ao padrão aparentemente neutro do jargão empresarial”.

O jornalista Thales Machado, que escreveu a orelha do livro, descreve Simas como “um sujeito encostado no balcão, de chinelo de dedo, camisa do São Cristóvão, para nos dizer e nos lembrar que vale também a história do Leônidas da Selva e não só a do (grande) Leônidas da Silva”.

O que interessa ao historiador a respeito do futebol brasileiro é a capacidade que o povo daqui teve de se apropriar do jogo europeu e lidar com ele não como simulacro, mas como reinvenção. Segundo Simas, “este talvez seja o traço distintivo mais importante de certo modo de ser brasileiro: a capacidade crioula de apropriação de complexos culturais estranhos e o poder de redefini-los como elementos originais”.

 

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Santo Antônio: Ogum, Xangô, Exu e secretário de segurança

No dia de Santo Antônio, resgatamos um texto de Luiz Antonio Simas presente no livro Pedrinhas Miudinhas.


Sei de muita gente que anda preocupada com os eventos previstos para a cidade do Rio de Janeiro nos próximos anos. Há quem diga que a cidade não suportará o crescimento do Carnaval, o furdunço da Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Minha opinião, nesse sentido, é muito clara: a população da cidade do Rio de Janeiro tem a tradição de enfrentar com galhardia as maiores confusões e transformar em festa (para o bem e para o mal) as situações mais desfavoráveis. Os riscos maiores se encontram, podem apostar, nas ações e negligências do poder público. Recorro à História para exemplificar.

Em 1710, pouco depois da notícia de que o ouro tinha sido encontrado em Minas Gerais, o rei francês Luís XIV resolveu enviar ao Brasil novecentos e tantos piratas, sob comando do capitão de fragata Jean-François Duclerc, para pilhar a cidade do Rio de Janeiro.

Os flibusteiros enviados pelo Rei Sol, temendo a barra estreita e as fortalezas da Baía da Guanabara, desembarcaram em Guaratiba, atravessaram os sertões de Jacarepaguá e as matas da Tijuca e rumaram em direção à cidade sem maiores problemas. Nesse momento entrou em cena o governador do Rio na ocasião, o português Castro Morais – apelidado pela população, que tinha o saudável hábito de não simpatizar com governantes, de ‘O Vaca’. Retifico a frase: Castro Morais, na verdade, saiu de cena.

Ao receber a notícia de que os homens de Duclerc estavam chegando ao Centro da cidade, Castro Morais tomou a mais inusitada decisão administrativa da história carioca em todos os tempos. Teve um ataque de covardia, se trancou no palácio governamental (no prédio onde hoje fica o Centro Cultural Banco do Brasil) e, de lá mesmo, mandou anunciar que estava passando, em ato administrativo, o comando das tropas ao novo chefe da segurança pública da cidade: Santo Antônio.

É isso mesmo. Santo Antônio, o casamenteiro, morto em 1231, foi oficialmente nomeado comandante das forças de segurança do Rio de Janeiro em 1710. Há quem afirme que uma pequena estátua do santo foi oficialmente empossada no cargo, em rápida cerimônia administrativa.

O pepino sobrou, evidentemente, para a população. As notícias deque o governador estava trancado no palácio sob cuidados médicos, tendo ataques nervosos, e de que Santo Antônio era o novo responsável pela defesa da cidade, levaram o povo do Rio a se virar. E nisso, admitamos, o carioca é especialista.

Os franceses – desgastados pela estratégia maluca de atravessar Jacarepaguá e a Tijuca a pé – foram emboscados no largo da Lapa e atacados das janelas com armas de fogo, óleo fervente, pedras, pedaços de pau, hortifrutigranjeiros e toda a sorte de quinquilharias domésticas. Milícias populares se organizaram com impressionante rapidez. O cacete estancou nas vielas do Centro, com especial destaque para combates corpo a corpo envolvendo escravos, índios, mulheres, crianças, bebuns, padres e devotos. Os estudantes do colégio dos jesuítas deram uma banana para as aulas, formaram uma inusitada artilharia de batinas e, desta forma, mandaram bala nos franceses e evitaram a invasão do palácio do governador.

Depois do furdunço todo, o saldo da quizumba era o seguinte: trezentos e tantos franceses mortos, quatrocentos e poucos presos – dentre eles o próprio Duclerc, que acabou misteriosamente assassinado em sua prisão domiciliar – e outros tantos feridos. O governador, saído do estado de letargia, permitiu que a semana seguinte à vitória fosse dedicada aos festejos populares – como se a população precisasse de alguma autorização do Vaca para celebrar a vida.

A ironia é irresistível. Que me desculpem os fãs da política de segurança dos governos. Os fatos históricos indicam, sem a menor margem de dúvidas, que o maior secretário de segurança pública da história do Rio de Janeiro foi mesmo Santo Antônio. Estou com ele e não abro. Revelam, ainda, a enorme capacidade da população do Rio para dar nó em pingo d’água e se organizar na mais absoluta desordem.

O risco maior é mesmo a síndrome de Castro Morais. Vez por outra o espírito do Vaca gruda no cangote dos nossos governantes e o poder público não cumpre a sua parte, não faz o que deve ser feito e ainda corre o risco de se meter onde não devia. De festa a gente entende; administrar o babado é que são elas. A vocação do Rio, salvação e danação da nossa gente, é, afinal de contas, amanhecer cantando.

Quanto a Santo Antônio, resta dizer que este é craque. Sincretizado com Ogum nos candomblés da Bahia, com Xangô, em alguns candomblés do Recife, e até com Exu, em vários terreiros cariocas, mereceu inclusive ser homenageado com uma curimba das mais populares em nossas macumbas, que o vincula ao povo da rua:

Santo Antônio de batalha
Faz de mim batalhador
Corre gira, pombagira,
Tiriri e Marabô.

 

 

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Mães também podem namorar

Mães também podem namorar (special edition de Dia dos Namorados) é uma crônica de Leonor Macedo, presente no livro Eneaotil.


 

Eu e o pai do Lucas namoramos por quase dois anos. Quando nosso filho era bem pequeno, com uns três meses, a gente se separou. Não chegamos a morar juntos, éramos muito novos, duros, confusos, mas foi como uma separação, e não um término de namoro comum, pois já havia um molequinho na jogada.

Depois disso, ele conheceu a Thaís, namoraram por 8 anos e se casaram no ano passado. Eu fiz o contrário: namorei vários caras, nunca me casei e acho que nunca vou casar. Calma, isso não é uma queixa desesperada de quem está desistindo da vida porque ainda está encalhada. Não casar é uma opção e estou muito feliz com ela, obrigada.

Parece que quando uma mulher se torna mãe solteira, ela tem a obrigação de passar o resto de seus dias procurando um marido. Um macho provedor que dê conta de gerenciar a família e de ensinar aos pequenos como é que se faz, como é que se vive. E mais: no imaginário coletivo, só um marido seria capaz de devolver a essa mãe solteira o gostinho de ser mulher, de passar pelos carros se olhando nas janelas e se sentir desejada novamente.

Veja, esse também não é um texto de quem tem a convicção de que fez a escolha certa, de quem sataniza casamentos e de quem é uma solteira irremediável. Longe de mim, eu adoro ter alguém.

Por esse motivo, eu já namorei muitas vezes, com muitos caras diferentes. Sou praticamente um Martinho da Vila de saias. E todas, absolutamente TODAS as vezes que eu engatava uma relação, eu ouvia a mesma pergunta:

– Mas você vai apresentar o cara para o Lucas? Não tem medo de confundir a cabeça dele?

No começo, batia aquela culpa cristã. Será? Será que é muito cedo para apresentar um novo namorado? E quem determina esse tempo? E depois, se terminar, como é que vai ser para o Lucas?

Como não existe um Manual Básico para Mães Solteiras, tive que ver para crer. Precisei tirar o menino do plástico bolha e deixá-lo viver: conhecer as pessoas, gostar ou não delas e se despedir, mesmo contra a vontade, às vezes. Pois é assim que é a vida, desde o dia em que a gente nasce até o dia em que a gente morre. Num dia, nós escrevemos nas capas dos cadernos das pessoas que estaremos juntos até morrermos, mas bastam alguns meses de férias para perdermos totalmente o contato com aquele amigo inseparável. E sobrevivemos, não?

Desde que me separei do pai do Lucas, meu filho conheceu todos os namorados que eu tive. De alguns ele gostou mais, de outros, menos. Alguns viraram seus amigos e com esses até hoje ele conversa, mesmo depois de a relação ter ido à falência.

Luquinhas virou praticamente o meu filtro: só valeria a pena entrar no novo namoro se o cara topasse o fato de que eu sou uma mãe solteira, de que a cicatriz da minha cesariana não sairá com o tempo, de que eu não estou disponível somente para cinemas noturnos, trepadas, amassos, bebedeiras, festas, viagens românticas. De que a gente pode fazer tudo isso, mas também tem que ir ao parque, às festinhas de criança, levar ao médico de madrugada, ficar em casa no feriado esperando o pequeno chegar da casa do amiguinho. Só namorei quem entendeu que, desde o dia 12 de novembro de 2001, eu não sou mais sozinha, nem nunca mais serei.

Quando o meu namoro com o Daniel acabou, o mais conturbado de todos eles e a relação em que o Lucas mais esteve envolvido, foi difícil contar ao meu menino. Porque para ele o Daniel significava dias na praia, brincadeiras, e ainda tinha a família toda do cara que ele havia conhecido e adorado. Foram dois anos de convivência intensa.

O Lucas tinha 7 anos quando esse meu namoro ruiu, de uma forma terrivelmente dolorida. Lembro-me de ter entrado no quarto dele e, aos prantos, contado que tínhamos terminado. Lucas me fez deitar em seu colo, acarinhou meus cabelos e disse que eu ficaria bem.

Ali eu entendi quem é que eu estava criando: um moleque emocionalmente inteligente, que poderia ficar confuso com truques de mágica e ilusionismo, com regras gramaticais, com frações, mas não com a vontade da mãe dele de ser feliz.

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