Nada de novo no front

Leia crônica de Roberto Jardim, publicada no livro Um outro futebol: pequenas grandes histórias da bola, e confira que não é de hoje que a Fifa se curva ao poder.

O futebol não é disputado somente dentro das quatro linhas. Nem apenas durante as competições. Ao longo desses mais de 160 anos de existência das regras criadas no Reino Unido, o jogo de bola e a política ou geopolítica têm se misturado. E, neste 2026, ano de Copa do Mundo e de mundo em ebulição, não vem sendo diferente.

Dizendo-se apolítica como sempre disse ser, a Fifa continua jogando o jogo dos poderosos de plantão. Agora, é a vez de o presidente Gianni Infatino fazer de tudo para agradar Donald Trump, líder de uma das sedes do sétimo Mundial deste século — além dos EUA, o torneio será disputado também no México e no Canadá.

Tudo pelos lucros para a Fifa e seus patrocinadores. Nada muito diferente do que já ocorreu na história da entidade e das Copas.

Vale lembrar que, em 1934, Benito Mussolini, criador do fascismo, fez de tudo para que o primeiro Mundial disputado na Itália fosse uma propaganda do seu regime. Aliás, podemos dizer que o ditador italiano foi o criador do sportswashing.

Afinal, anos antes, seu governo havia notado a influência do futebol na sociedade e decidido investir pesado no desenvolvimento do esporte, tanto localmente, com a reinvenção do calcio, como na conquista de duas Copas consecutivas, em 1934, na própria Itália, e em 1938, na França.

Já nesse ano, meses antes do primeiro Mundial da França, Adolf Hitler comandava a anexação da Áustria. O mundo no final da terceira década do século 20 via o avanço do nazismo como um mal necessário na luta contra o comunismo. Na sequência, porém, as forças de Hitler anexaram a Tchecoslováquia, a Lituânia e a Polônia, levando o planeta à Segunda Guerra (1939-1945).

E ainda temos a Copa de 1978, disputada numa Argentina sob mão de ferro da mas ferrenha ditadura militar da América do Sul. De 1976 a 1983, ano da redemocratização, 30 mil pessoas desapareceram no país de Lione Messi. Nesse Mundial, o brasileiro João Havelange, então presidente da FIFA, posou orgulhoso ao lado do sanguinário Jorge Videla.

Em 2026, assistimos Trump ordenar a invasão da Venezuela e sequestrar o presidente e ditador Nicolás Maduro. A desculpa foi o narcoterrorismo, mas bem sabemos que o petróleo era o motivo principal. Vimos, ainda, ameaças de anexação da Groenlândia e até do Canadá.

Bem como o republicano passou dos avisos aos bombardeios do Irã, ao lado de Israel. Mais uma vez falando em liberdade e democracia. A nova guerra no Oriente Médio levou Teerã a comunicar sua saída do Mundial.

E ainda há a questão interna nos EUA, com o Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas. Além de caçar imigrantes, o ICE, na sigla em inglês, já matou duas pessoas, além de ameaçar até crianças em escolas.

Enquanto isso, Infantino só se mostra preocupado com a bagunça que foi a final da Copa Africana de Nações. E, assim como com Mussolini, em 1934, e Hitler, em 1938, e Videla, em 1978, a Fifa não moveu um músculo contra o autoritarismo de Trump nesses dias iniciais de 2026.

A hipocrisia da entidade máxima do futebol é tanta que, mesmo tendo punido a Rússia em 2022, banindo a seleção e os times do país de competições internacionais após a invasão da Ucrânia, sequer escreveu uma linha em repúdio ao ocorrido na Venezuela.

E assim, a bola segue rolando nos estádios e nas mesas dos gabinetes acarpetados dos líderes mundiais. Sempre com a
Fifa dando aval aos movimentos de governos mais poderosos da ocasião.

Ou seja, nada de novo no front do futebol.

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