Uma mistura necessária

Leia o prefácio de Renata Mendonça para o livro Um outro futebol: pequenas grandes histórias da bola, do jornalista Roberto Jardim. O livro está em pré-venda no nosso site AQUI.

Difícil precisar aqui quem inventou a máxima “futebol e política não se misturam”. Mas ela virou quase como aqueles ditados que a gente cresce repetindo sem saber a origem e sem pensar muito sobre o que significam.

Tão conveniente seria para os que estão no comando que essa frase fosse verdadeira. O futebol como ópio do povo e nada mais, reproduzindo a lógica secular do pão e circo que tanto alimentou o Império Romano. Enquanto o jogo acontece, todo mundo esquece as mazelas do dia a dia, celebra as emoções de um gol ou uma grande defesa, e deixa o campo ou a arquibancada sem questionar mais nada.

E a que custo essa máxima tentou se fazer valer? De repressão, ameaça e até lei, na busca de domar os ousados desobedientes. Mas este livro nos lembra e nos revela que o futebol já foi e ainda é um ato político para muitos que enxergam nele a única possibilidade de lutar por existência — ou de resistir na luta.

O futebol que se opôs a ditaduras, defendeu as minorias, deu voz e lugar aos desfavorecidos. O jogo criado pela elite e para a elite que viu os dominados virarem dominantes. Que tentou excluir os pobres e teve que aceitá-los brilhando em campo. Que tentou proibir os negros e terminou sendo um reinado deles (salve rei Pelé e rainha Marta!). Que tentou impedir as mulheres e as viu fazendo por meio dele uma revolução.

Ler os tantos contos reais deste livro nos faz viajar pela história e entender o quão importante o futebol foi para quebrar barreiras impostas na sociedade. Quando lemos sobre o primeiro jogador negro do Botafogo, ainda em 1907, que só pôde disputar um campeonato porque a torcida pressionou por sua liberação, descobrimos que o futebol enfrentou desde cedo um problema estrutural do país que perdura até hoje. O racismo que atingiu Paulino de Souza na época ainda reverbera em Vinicius Júnior, que se recusou a ser vítima para ser algoz dos racistas. Vieram por pressão dele as primeiras condenações no futebol espanhol por racismo, também registradas aqui, nas páginas finais.

Quando conhecemos Carlota Resende, a mulher presa por manter um time de futebol feminino, aprendemos que nem mesmo uma proibição por lei impediu as mulheres de jogarem. E é triste atestar que, se hoje elas não são mais proibidas oficialmente, ainda são afastadas pelo comportamento machista daqueles que comandam o jogo. A cena inaceitável do beijo ‘assedioso’ do presidente da Federação Real Espanhola, Luis Rubiales, na camisa 10, Jenni Hermoso, em pleno palco da premiação do Mundial, mostra que não há limites para a ousadia desses caras. Só que hoje nós não estamos sozinhas. E nestas páginas vocês vão ver que ninguém silencia mais as mulheres quando elas estão unidas. Futebol, para nós, sempre
foi ato político.

Ao se debruçar sobre os brilhantes textos deste Um outro futebol, você, caro leitor, vai perceber que o futebol não é, nem nunca foi, só um jogo. O maior dos clichês já repetidos sobre esse esporte não poderia ser mais verídico. Porque foi por meio dele que se resistiu a ditaduras, que se defendeu a democracia e que se tentou derrubar o fascismo. Foi também por meio dele que mulheres reivindicaram seu direito de jogar uma Copa do Mundo e que torcedores gays se uniram em uma torcida organizada para fazer valer sua presença nas arquibancadas ainda
tão homofóbicas e preconceituosas.

Prepare-se, então, para uma viagem no tempo que não tem fim, porque futebol e política formam uma grande mistura atemporal que vai se renovando conforme as lutas mudam ou amadurecem. Do século passado até os anos mais recentes, você vai descobrir que esse jogo ainda é uma das melhores armas da sociedade para enfrentar suas maiores mazelas. Por sua força e popularidade, o futebol tem condições de trazer os holofotes para o que realmente importa. Então por que escolher o caminho contrário?

Os poderosos seguirão torcendo para que não, mas futebol e política são uma mistura não só desejável, como também necessária.

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