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Mórula

O Brasil nasceu da melancolia de Zâmbi

Zambiapungo – o senhor supremo – se entristeceu um dia, cansado da solidão do poder e das tarefas da criação. Cogitava mesmo, o pai maior, interromper o curso do mundo. Faltava alguma coisa que justificasse aquela grandeza toda. Zâmbi, que sabia de tudo, achava que tinha criado todas as coisas necessárias para a vida. Mas estava triste e recorreu aos inquices, voduns e orixás, seus filhos diletos.

Pediu a Zaratempo que inventasse algo para despertar seu interesse e o impedir de desistir do mundo. Tempo criou as estações do ano com todas as suas mudanças. Zâmbi gostou, mas não sorriu.
Zâmbi chamou Katendê e pediu a mesma coisa. Katendê, o senhor das jinsabas (folhas), falou ao pai sobre o poder medicinal das plantas. O deus supremo se interessou um pouco, mas ainda assim não sorriu.

Matamba foi a próxima a tentar alegrar Zâmbi. A senhora das ventanias mostrou a força dos furacões e o baile fabuloso dos relâmpagos. Zâmbi olhou, aplaudiu admirado, mas continuou triste. E assim vieram todos os deuses do Congo. Vunji trouxe as crianças; Angorô inventou o arco-íris; Gongobira deu a Zâmbi um rio de peixes coloridos; Dandalunda chamou as luas que mudam marés; Mutalambô fez um banquete com as caças trazidas das densas florestas; Roxo-Mucumbi forjou ferramentas e adagas no ferro em brasa; Lembá Dilê conduziu um cortejo branco de pombas, cabras e caramujos.

Zâmbi gostou e agradeceu, mas continuou triste.

Até que Zâmbi perguntou se Zaze, o dono do fogo, sabia de alguma coisa que pudesse afastar aquele banzo de melancolia. Zaze, a quem os iorubás chamam de Xangô, consultou o oráculo e imolou um bode branco em sacrifício. As carnes foram repartidas entre as divindades do Congo. Zaze, em seguida, aqueceu a pele do bode na fogueira. Ainda com o fogo, tornou oco o pedaço de um tronco seco da floresta. Sobre uma das extremidades do tronco oco, Zaze esticou a pele do animal e inventou Ingoma – o tambor.

Zaze começou a percutir o couro com toda a força e destreza. Aluvaiá, aquele que os iorubás conheciam como Exu e os fons como Legbá, gingou ao som do tambor de Zaze e, logo depois, todos os deuses do Congo, ao batuque sincopado do Ingoma, fizeram a primeira festa na manhã do mundo.

Zambiapungo gostou do fuzuê do tambor de Zaze e descansou feliz. Era isso que faltava. Zâmbi sorriu.

Um filho de Zaze, muito tempo depois, foi capturado na floresta e jogado no ventre escuro de um navio. Esse negro do Congo chegou, entre correntes de ferro e centenas de outros homens, ao outro lado da calunga grande – na terra onde Zambiapungo era mais conhecido como Tupã.

O filho de Zaze, mesmo entre a dureza das correntes e o cheiro da morte do seu povo, conseguiu levar para o país de Tupã o Ingoma inventado pelo pai.

Ao chegar do outro lado do mar, submetido – e insubmisso – ao horror do cativeiro, o filho de Zaze bateu forte no tambor, convidou para o fuzuê o povo de Tupã e chamou, com a força do ritmo ancestral, os deuses das matas, esquinas e macaias. Eles vieram, atraídos pelo fervor das danças e pelo clamor das festas, e resolveram ficar.

Até mesmo alguns dos que chegaram para dominar a terra foram seduzidos e civilizados pela festa. A generosa festa dos filhos de Zâmbi, nos terreiros grandes do Brasil.

O tambor, filho de Zaze, é o pai do nosso povo.

Luiz Antonio Simas é autor de “Pedrinhas miudinhas”, livro em que este texto foi originalmente publicado.

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Um futebol mais previsível?

A Copa acabou, o Brasil não levou, a França ganhou e o jornalista Augusto Martins fala da sua rendição ao árbitro de vídeo, o tal VAR, que embora considere um atentado à narratividade do jogo, parece ser um caminho sem volta para o que o futebol tem se tornado.

O árbitro argentino Nestor Pitana durante a final da Copa de 2018

Rendição

Esta final da Copa do Mundo marcou o momento em que eu me rendi ao árbitro de vídeo, o chamado VAR. Mais do que isso, acho que começo a me conformar que o futebol não é mais o que era há décadas atrás, e, infelizmente, não vai voltar a ser. E o VAR é mais resultado disso do que causa.

Me explicarei de forma breve, para evitar tornar o meu lamento enfadonho. No ótimo livro “Veneno Remédio: O futebol e o Brasil” (2008), José Miguel Wisnik diz já no capítulo introdutório que o futebol “abre-se, mais do que os demais esportes, a uma margem narrativa que admite o épico, o dramático, o trágico, o lírico, o cômico, o paródico”.

Ele continua: “Nele, o tempo da competição é mais distendido, alargado e contínuo do que no futebol americano, no vôlei, no basquete ou no tênis. (…) Não quero dizer que os outros esportes sejam desinteressantes – muito ao contrário. Mas é que neles, em geral, há um foco mais cerrado sobre cada momento contábil, em que se traduz em números ou em ganho de território o embate frontal de performances e competências. (…), temos uma série de alternâncias de ataques e defesas, de confrontos repicados, individuais”.

Para mim, o VAR é um atentado à “narratividade” do futebol descrita por Wisnick. Se em esportes como futebol americano, rúgbi e tênis é possível encaixar o árbitro de vídeo nas inúmeras pausas previstas, no futebol o VAR é por demais intrusivo e quebra a continuidade do jogo. Como se isso não fosse suficiente, esta Copa mostrou que, com ou sem VAR, as decisões permanecerão subjetivas, passíveis de interpretação e, portanto, polêmicas. Bem… Isso não importa mais. Como disse, eu me rendi. Se nas primeiras rodadas da Copa eu poderia escrever um tratado contra o VAR, isso não vem mais ao caso agora.

No intervalo da final da Copa deste domingo, me veio o lampejo. No primeiro tempo, eu vi a França sem jogar nada marcar um gol de bola parada. Depois, a Croácia, que jogava melhor, mas não criava chances, empatou também na bola parada. No fim da primeira etapa, o juizão se atrapalhou com o VAR e deu um pênalti mandrake para a França, após um escanteio. Pois, bem. Num futebol em que os lances de bola parada são cada vez mais importantes (leio nos sites que esta foi a Copa com mais gols de bola parada) e em que trancar os espaços do campo tem mais valor do que a posse de bola, o árbitro de vídeo não é tão anômalo assim. No futebol do jogo picado, o ritual do juiz correndo para o monitor ao lado do campo enquanto o estádio todo espera o que está por vir não é tão patético assim.

Lembro do livro de Wisnik e não posso evitar de pensar se o futebol não está ficando mais fásico. Não, obviamente, como o vôlei ou o basquete, não que tenha perdido por completo a tal narratividade, mas se não está ficando mais previsível, se não está assim se transformando para pior. Pode ser o nostalgismo típico da velhice me atacando já na meia-idade, mas na próxima Copa eu acho que vou de Netflix.

 

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Tá chegando a hora

Finalmente vai começar a Copa e para esquentar um texto de Marcelo Moutinho sobre essa ansiedade que só o Mundial de Futebol desperta. Quais serão os lances inesquecíveis? Os jogos mais feios? E os mais bonitos? E o gol de placa, será de quem? A maior goleada? O maior vexame?

Bola pro mato que o jogo é de campeonato!

 

O gol mais bonito de 2014: o peixinho do holandês Van Persie

 

 

Olaria x Madureira em Moscou

Temos um time, como as eliminatórias e os recentes amistosos comprovaram. E, ao contrário de anos anteriores, não há nenhuma grande treta futebolística no ar. Nenhum muxoxo porque fulano ficou de fora ou sicrano foi vítima de injustiça histórica que culminará na humilhante derrota. A rigor, as antiquadas recomendações russas sobre a “demonstração de afeto homossexual” e os hilários vídeos de divulgação do torneio dão mais assunto do que a convocação dos jogadores. Resta, portanto, enfrentar mais algumas horas de pasmaceira — entrecortados pela chatíssima polêmica sobre ou torcer ou não pela Seleção — enquanto o leite ferve na panela.

Pois não vejo a hora de começar a peleja propriamente dita. Bola pro mato que o jogo é de campeonato. De Copa do Mundo. E então engrossar o coro da minoria — 130 milhões contra o resto do mundo, reforçado pela turma disposta a remar na contramão — na expectativa pelo hexacampeonato, com a disposição de trocar o melhor livro por um memorável Arábia Saudita x Egito. Sim, porque há vida além da Seleção Brasileira, e nem sempre o embate mais interessante do campeonato acontece entre gigantes como Argentina e França.

Quem já assistiu a um Madureira x Olaria na Rua Bariri bem sabe quão tocante é ver aquele trombador, com quem a bola não quis papo durante toda a partida, deslizar de carrinho pelo barro, esticar a rede adversária e correr, com o joelho esfolado e sem pensar em departamento médico, em direção à torcida que comemora como se fosse o título do Brasileirão. Nesses jogos, à margem da exuberância óbvia que exalam os gigantes das quatro linhas, a beleza nasce justamente do precário — do uniforme mal desenhado, da bizarra furada do zagueiro, da magreza subnutrida do lateral, do esforço comovente do camisa dez em honrar o número ao qual legou o rei Pelé uma mística inequívoca.

Guardadas as devidas e muitas proporções, na Copa que se aproxima também teremos alguns anticlássicos por (falta de) excelência. Que venham, então, Espanha x Portugal, Inglaterra x Bélgica, Alemanha x México, os confrontos de monta. Mas também Panamá x Tunísia, Irã x Marrocos, Senegal x Japão. Que venham as estrelas Messi, Cristiano Ronaldo e Neymar. E, a seu lado, os famosos ‘quem’. Craques absolutos e pernas-de-pau de pelada no Aterro, lado a lado.

Com a compreensão previamente rogada às pendências do cotidiano, eles povoarão por um mês as telas das TVs e de nossa imaginação. Nem que seja para lembrar que perder ou ganhar é do jogo. E que o futebol, assim como a vida, é feito de gols de placa e furadas vexatórias.

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Sensação térmica

Esta crônica integra o livro “O Rio do Moa”, de Moacyr Luz.

Nessa minha vida de bússola descompassada, morei, criança em Bangu. Não havia sensação térmica. Era imersão tórrida.

Quase esquizofrênico, zanzei também por Copacabana, no tempo em que a Avenida Atlântica ainda seguia em mão dupla, lentos carros do Leme ao Posto 6, rés da TV Rio e seus primeiros estúdios. Os turistas usavam um bronzeador vermelho aditivado, um urucum-bull no formato de travesseiro.

Na volta ao hotel, metade da pele assada e tatuada para sempre no quarador das esteiras de palhinha, o que sobrava, ardia mais que pimenta malagueta, daquelas do Pará. O sujeito fritava a olhos nus, não era sensação. Alguns sentavam ao redor das barraquinhas de refrigerantes implorando por uma barra de gelo na cabeça. Os artistas de plantão frigiam ovos no asfalto pra lá de selvagem. Pedido feito: gema dura, por favor!

Bangu registrava a máxima.

Das ruas desenhadas com pó de pedra, o calor produzia um delírio de fluidos em chamas.

Não era sensação apenas, qualquer um derretia ao meio-dia.

O ventilador, tonto de tanto girar, pipocava no piso da sala. Mais barulho que eficiência, suas palhetas lembravam hélices de um antigo Electra da ponte aérea.

Recentemente criaram e distribuíram nas ruas os termômetros com anúncios publicitários. Cá pra nós, aquelas torres com números digitais, apresentando graus centígrados dignos de recordes enquanto as autoridades climáticas, desmentindo a quentura, amenizam com leques o teu suor, agride.

Parênteses.

Outra categoria que usualmente contraria os dados de um verão abrasador é a de taxista.

Você precisa implorar, desidratado, pra ligar o ar condicionado e ainda escuta um grunhido enquanto os vidros são fechados.

Voltando à vaca quente, a novidade é a sensação térmica.

Com ares de fim de mundo, o sujeito, quase um beduíno do Saara, se achando rejeitado no purgatório, anota a última frase do apresentador com um dedo no mapa virtual: “Na verdade, é apenas uma sensação térmica!”.

Recordo um vizinho que, pego pela Lei Seca com um litro de uísque na cabeça, hálito de barril de pólvora, se desculpa ao agente da operação: “Meu camarada, parece que eu bebi, né? Mas é só a sensação. Tô bonzinho!”.

Mais um caso pro Santo, o protetor.

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PTSC#27

foto Luis Henrique 2014É possível que o leitor reconheça Mauro Iasi como professor da UFRJ. Ou mesmo como dirigente partidário do PCB, partido pelo qual foi candidato a presidente em 2014. Ele é também um dos autores desta casa. Mauro organizou “Ecos do golpe – a persistência da ditadura 50 anos depois” e publicou conosco na antologia “Cultura, democracia e socialismo”. Pois Iasi é mais que isso, de fato um ser complexo. Na entrevista a seguir, apresentamos o poeta, autor de “Outros tempos”, nosso novo lançamento.

Nestas perguntas triviais Mauro fala de poesia, do próprio livro e, como não podia deixar de ser, analisa a conjuntura. Afinal, o que espera o poeta das eleições e da Copa do Mundo?

_Você é dirigente partidário, professor, poeta e foi candidato a presidente. Quem é Mauro Iasi?
No momento pai do Camilo (do Gi e da Má) e em breve avó do Tom. Sou um educador popular, emprestado para a Universidade, e, quando crescer, quero ser poeta e comunista.

_Por que você diz que “Outros tempos” reúne poemas “noturnos”?
Meus poemas sempre foram militantes, comprometidos com a luta e, por isso mesmo, com a paixão e a vida. Acontece que, às vezes, a vida fica difícil, como agora. São tempos de retrocesso, de abismos, de derrota e a poesia reflete tudo isso. Mas, é de noite que a gente sonha, não é?

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UM LIVRO

“Versos não se escrevem para a leitura de olhos mudos. Versos cantam-se, urram-se, choram-se (…) Repugna-me dar a chave de meu livro. Só quem for como eu tem essa chave”.

Mário de Andrade. Poesias completas.
Edição crítica de Diléa Zanotto Manfio.
Edusp, 1987

_Toda poesia é política?
Toda poesia viva é política, toma partido, escolhe seu lado, sofre, cicatriza. Poesia exige sensibilidade diante da vida e aquele que consegue ficar imune diante da injustiça do mundo, deste pais oligarca e escravista, tem alguma coisa de errado. O caráter político da poesia não se encontra só naquilo que ela diz, em seu conteúdo, a poesia é também forma, ritmo, imagem e sensação que se sugere àquele que lê. Ela provoca e incita o mundo a mudar para continuar vivo.

_Você tem um poeta preferido?
Fica difícil dizer um só. Fui criado lendo Neruda, Guillén, Vallejo, descobri como que tomado por um furacão o enorme Maiakovski e Brecht. Mas quem primeiro me mostrou a força que a poesia tem e me fez levantar do chão da vida, foi Drummond. Agora, quem é brasileiro e da minha geração logo aprendeu que poesia vem junto com a música e daí meus poetas são Aldir Blanc, Victor Martins, Cacaso, Fernando Brant, Chico Buarque entre tantos outros.

_Você arrisca previsões para 2018? O Brasil ganha a Copa? Quem será eleito presidente?
Difícil. Vai ter muita luta e muita coisa vai mudar. No momento estou torcendo contra, contra a Reforma da Previdência e o saco de maldades do usurpador. Desde Johan Cruyff eu torço para a Holanda, ela está fora da copa este ano, mas não importa, torço mesmo assim. Não seria interessante se quem estivesse disputando por fora das regras da FIFA acabasse ganhando? Viva o Poder Popular, quem sabe?

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Promoção de carnaval

Entre os dias 1º e 15 de fevereiro o site da Mórula está com um código promocional de 30% de desconto para os livros relacionados ao carnaval, “Pra tudo começar na quinta-feira”, de Luiz Antonio Simas e Fábio Fabato, e “O samba serpenteia com o Escravos da Mauá”, de Carol Couto.

Para participar é só inserir o código MORULANAFOLIA no carrinho de compras que o desconto aparece. Vale lembrar ainda que o frete é grátis pra todo o Brasil. Clique no livro e aproveite a promoção.

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Cosme e Damião

Dia 27 é dia de São Cosme e Damião e nós celebramos com um texto de Luiz Antonio Simas, em homenagem aos santinhos. O texto foi publicado no livro “Pedrinhas Miudinhas: ensaios sobre ruas, aldeias e terreiros”.

 

São Cosme e São Damião

Sou devoto amoroso do Brasil e dos seus encantamentos. Nesse ponto, e dou o braço a torcer, quem está certo é o velho compositor baiano: “quem é ateu e viu milagres como eu”… E nossos milagres, camará, são muitos, temperados por tambores e procissões; pela Virgem no andor, o caboclo na macaia e o preto velho no gongá. Somos, os brasileiros, filhos do mais improvável dos casamentos, entre o meu compadre Exu e a Senhora Aparecida – a prova maior de que o amor funciona. E Tupã, que se vestiu com o cocar mais bonito para a ocasião, celebrou a cerimônia entre a cachaça e a água benta.

Uma das nossas mãos está calejada pelo contato com a corda santa do Círio de Nazaré – a outra tem os calos gerados pelo couro do atabaque que evoca as entidades. As mãos do Brasil e do seu povo. Nossos ancestrais passeiam pela vastidão da praia sagrada dos índios de Morená, retornam à Aruanda nas noites de lua cheia, silenciam no Orum misterioso das almas e florescem encantados nas folhas da Jurema. Os guerreiros de nossas tropas trazem a bandeira do Humaitá, o escudo de Ogum e o estandarte da pomba branca do Divino Espírito Santo – a mesma pomba que pousou na ponta do opaxorô de Obatalá. São essas as nossas divisas de guerra e paz; exércitos do Brasil.

E digo isso porque chegou o dia de Cosme e Damião. Dia brasileiro dos santos estrangeiros e orixás africanos. Dia de igreja aberta, missa campal, terreiro batendo, criança buscando doce, amigos bebendo saudades e aconchegos. Dia de comer caruru na rua. A tradição brasileira de Cosme e Damião é a mais festiva do mundo. O bom, nessas horas que antecedem as folganças dos santos gêmeos, é vadiar no clima da folia, tomando pinga e ouvindo umas cantigas bonitas sobre os protetores dos meninos. É hora de bater samba de roda pra Dois-Dois, na palma da mão e no ponteio da tirana.

Aqui em casa toquei a alvorada lembrando as cantigas mais bonitas que conheço em homenagem aos gêmeos. É de comover pedra! Quando ouço as louvações pros santinhos, tenho forte desconfiança de que ainda morro um dia de tanta belezura do Brasil – um amor que não se explica, feito cachaça da boa, jabuticaba, sorvete de cupuaçu, beira de rio, gol do meu time, cerveja gelada, mulher amada, amigos do peito e caruru de Cosme. E que no dia de cantar pra subir, um samba de roda desses me carregue ao encontro dos meus pela Noite Grande.

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Mórula na FLIP 2017

Confira nossa agenda na Festa Literária Internacional de Paraty:

_Quinta, 27/07, às 15h: Alberto Mussa, Felipe Botelho Corrêa e Luiz Antonio Simas, convidados da Flip 2017, vão reviver os tempos em que Lima Barreto se sentava no Café Papagaio. A mediação da conversa é de Mariana Filgueiras e o papo acontece no Café Paraty, rua do Comércio, 253.

_Sexta, 28/07, às 15h: dia de ouvir Luiz Antonio Simas e Beatriz Resende revisitando os lugares do Rio de Janeiro por onde Lima Barreto passou, através de personagens de seus romances e contos. “Subúrbios”, no Auditório da Matriz.

_Sábado, 29/07, às 18h: Marcelo Moutinho, Henrique Rodrigues e Fernando Molica batem um papo e lançam “Conversas de Botequim” no Encontros Malê em Paraty. Na Rua do Fogo, 04 – Centro Histórico.

Também no sábado, o livreiro Rodrigo Ferrari fará da Rua da Matriz uma filial da Rua do Ouvidor. A partir das 18h, a versão itinerante da Folha Seca oferecerá ao público uma seleção cuidadosa de obras relacionadas à cultura carioca. Os autores que sempre estão pela Folha Seca, fazendo dela a livraria mais charmosa do Rio de Janeiro, também estarão por lá. E às 21h o samba come solto!

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O Papão da Curuzu

* texto de Luiz Antonio Simas, que integra o livro “Ode a Mauro Shampoo e outras histórias da várzea“.


 

O "Papão da Curuzu", Paysandu
O “Papão da Curuzu”, Paysandu

Somos, os brasileiros, pentacampeões mundiais de futebol. Perguntaram-me, certa feita, qual foi a maior das vitórias do futebol tupiniquim. A final contra a Suécia, em 1958? O saco que metemos na Itália, em 1970?

Matutei sobre os feitos do escrete, descartei as finais de 1962, 1994 (essa foi menos emocionante que a Missa do Galo daquele ano) e 2002, cogitei citar o baile que demos na Espanha na fase final da Copa de 1950, mas, na hora de responder, falei de forma automática, feito caboclo de umbanda:

— A maior vitória da história do futebol brasileiro não foi obtida pela seleção. Foi o vareio que o Paysandu de Belém deu no Peñarol do Uruguai em 18 de julho de 1965: 3 a 0 pro Papão no Estádio da Curuzu.

É verdade. Foi mesmo um feito digno de figurar nos anais da história. O Peñarol à época era uma máquina. O time titular era praticamente a seleção do Uruguai: Mazurkiewsk, Forlan, Abbadie, Pedro Rocha e Caetano, por exemplo, envergavam a camisa preta e amarela do time platino. Eram, os gringos, bicampeões da Libertadores da América, bicampeões uruguaios e campeões mundiais interclubes.

Pois o Paysandu deu um vareio nos homens. Com o ex-tricolor Castilho fechando o arco e um ataque encapetado — Vila, Milton Dias, Pau Preto e Ércio —, o Papão não tomou conhecimento da rapaziada do churrasco, jogou pra dedéu e liquidou a fatura de forma inapelável (Ércio, Milton Dias e Pau Preto fizeram os gols).

Ouso dizer que, em se tratando de confrontos na América Latina, o que o Paysandu fez com o Peñarol reduz a Batalha Naval do Riachuelo a um evento tão dramático quanto um passeio de elevador em um prédio de cinco andares.

O triunfo do Paysandu virou Belém de cabeça pra baixo. Houve carreata, ponto facultativo, desmaios, infartos, pororoca no Rio Guamá, pato no tucupi e o escambau. O Liberal, o maior jornal do Pará, estampou na manchete: “Triunfo do Papão é a vitória do Brasil”. Estava vingado o maracanazzo de 1950.

Daqui do Rio, basbaque com o triunfo, Nelson Rodrigues — garantindo que assistira ao jogo pelos rumores do vento — não deixava por menos em sua crônica no jornal “O Globo”: “O Paysandu tem camisa. Sendo preciso, sua camisa deixa de ser um trapo qualquer para erguer-se como um estandarte em chama […]. O Peñarol saiu de lá com as orelhas a meio pau. Três a zero! Um banho completo!”.

Uma grande história desse jogaço aconteceu nas arquibancadas. Um dos torcedores presentes ao embate, o fuzileiro naval Francisco Pires Cavalcanti, teve um treco durante a partida. Pires era músico da marinha e compositor, mas não conseguia compor nadica de nada há uns vinte e tantos anos. As musas do poeta estavam de férias.

Entusiasmado com o desempenho do seu Paysandu, o fuzileiro Pires teve uma inspiração súbita, uma espécie de estalo de Vieira. Num estado de transe que só o futebol proporciona, começou ali mesmo, nas arquibancadas, a compor uma marchinha em homenagem ao Papão e ao chocolate paraense nos uruguaios.

Encerrado o jogo, um eufórico Pires cantava que nem doido para não esquecer a melodia que acabara de fazer: “Uma listra branca, outra listra azul, essas são as cores do Papão da Curuzu”. O fuzileiro acabara de compor a ciranda, cirandinha do futebol do Pará.

Além, portanto, da vitória acachapante contra os gringos, aquela tarde de sol em Belém viu nascer um dos hinos mais simpáticos dos clubes de futebol do Brasil. Para muitos, inclusive, a marchinha de Pires é o hino oficial do Papão. Não é, mas é como se fosse.

Vou ser sincero: o hino oficial do Paysandu não me comove. Parece uma ladainha de igreja. Já a marchinha do fuzileiro Pires é boa pra burro. Cita o baile no Peñarol e ainda sacaneia o maior adversário, o Clube do Remo, ao se referir a uma biaba que o Papão deu no rival (um acachapante 7 a 0) no verso “Pintou o sete numa tela azul”. É isso, camaradas. Viva o glorioso Paysandu e viva o fuzileiro Pires, caboclo amazônico encantado nas arquibancadas da Curuzu toda vez que a torcida do Papão entoa sua marchinha arretada.

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Sonhos, derrotas e conquistas da várzea

O jogador Mauro Shampoo
O jogador Mauro Shampoo, um dos homenageados no livro

As 32 crônicas de “Ode a Mauro Shampoo e outras histórias da várzea” são uma forma de resistência encontrada pelo autor, o historiador Luiz Antonio Simas, ao futebol moderno, tratado como negócio e espetáculo. Nos textos, que valorizam os chamados “times pequenos”, as derrotas são tão valorizadas quanto as conquistas, e a várzea é considerada qualquer terreno onde o futebol inventa a vida.

Crítico aos termos “jogador diferenciado”, “peça de reposição”, “assistência”, “arena multiuso” e “espectador”, Simas faz um paralelo entre as culturas do futebol com as do botequins atuais: “O processo de falência do futebol e do botequim como cultura reduz o jogo e a ida ao bar aos patamares de meros eventos; para delírio das caravanas que parecem percorrer os bares com a curiosidade dos antigos imperialistas em incursões civilizadoras e dos espectadores que ficam fazendo selfies em estádios de futebol enquanto a bola rola. Me espanta, ainda, como isso se reflete no vocabulário, que perde as características peculiares do torcedor e do bebum (o correto agora é chamar de “butequeiro”) e se adequa ao padrão aparentemente neutro do jargão empresarial”.

O jornalista Thales Machado, que escreveu a orelha do livro, descreve Simas como “um sujeito encostado no balcão, de chinelo de dedo, camisa do São Cristóvão, para nos dizer e nos lembrar que vale também a história do Leônidas da Selva e não só a do (grande) Leônidas da Silva”.

O que interessa ao historiador a respeito do futebol brasileiro é a capacidade que o povo daqui teve de se apropriar do jogo europeu e lidar com ele não como simulacro, mas como reinvenção. Segundo Simas, “este talvez seja o traço distintivo mais importante de certo modo de ser brasileiro: a capacidade crioula de apropriação de complexos culturais estranhos e o poder de redefini-los como elementos originais”.

 

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Santo Antônio: Ogum, Xangô, Exu e secretário de segurança

No dia de Santo Antônio, resgatamos um texto de Luiz Antonio Simas presente no livro Pedrinhas Miudinhas.


Sei de muita gente que anda preocupada com os eventos previstos para a cidade do Rio de Janeiro nos próximos anos. Há quem diga que a cidade não suportará o crescimento do Carnaval, o furdunço da Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Minha opinião, nesse sentido, é muito clara: a população da cidade do Rio de Janeiro tem a tradição de enfrentar com galhardia as maiores confusões e transformar em festa (para o bem e para o mal) as situações mais desfavoráveis. Os riscos maiores se encontram, podem apostar, nas ações e negligências do poder público. Recorro à História para exemplificar.

Em 1710, pouco depois da notícia de que o ouro tinha sido encontrado em Minas Gerais, o rei francês Luís XIV resolveu enviar ao Brasil novecentos e tantos piratas, sob comando do capitão de fragata Jean-François Duclerc, para pilhar a cidade do Rio de Janeiro.

Os flibusteiros enviados pelo Rei Sol, temendo a barra estreita e as fortalezas da Baía da Guanabara, desembarcaram em Guaratiba, atravessaram os sertões de Jacarepaguá e as matas da Tijuca e rumaram em direção à cidade sem maiores problemas. Nesse momento entrou em cena o governador do Rio na ocasião, o português Castro Morais – apelidado pela população, que tinha o saudável hábito de não simpatizar com governantes, de ‘O Vaca’. Retifico a frase: Castro Morais, na verdade, saiu de cena.

Ao receber a notícia de que os homens de Duclerc estavam chegando ao Centro da cidade, Castro Morais tomou a mais inusitada decisão administrativa da história carioca em todos os tempos. Teve um ataque de covardia, se trancou no palácio governamental (no prédio onde hoje fica o Centro Cultural Banco do Brasil) e, de lá mesmo, mandou anunciar que estava passando, em ato administrativo, o comando das tropas ao novo chefe da segurança pública da cidade: Santo Antônio.

É isso mesmo. Santo Antônio, o casamenteiro, morto em 1231, foi oficialmente nomeado comandante das forças de segurança do Rio de Janeiro em 1710. Há quem afirme que uma pequena estátua do santo foi oficialmente empossada no cargo, em rápida cerimônia administrativa.

O pepino sobrou, evidentemente, para a população. As notícias deque o governador estava trancado no palácio sob cuidados médicos, tendo ataques nervosos, e de que Santo Antônio era o novo responsável pela defesa da cidade, levaram o povo do Rio a se virar. E nisso, admitamos, o carioca é especialista.

Os franceses – desgastados pela estratégia maluca de atravessar Jacarepaguá e a Tijuca a pé – foram emboscados no largo da Lapa e atacados das janelas com armas de fogo, óleo fervente, pedras, pedaços de pau, hortifrutigranjeiros e toda a sorte de quinquilharias domésticas. Milícias populares se organizaram com impressionante rapidez. O cacete estancou nas vielas do Centro, com especial destaque para combates corpo a corpo envolvendo escravos, índios, mulheres, crianças, bebuns, padres e devotos. Os estudantes do colégio dos jesuítas deram uma banana para as aulas, formaram uma inusitada artilharia de batinas e, desta forma, mandaram bala nos franceses e evitaram a invasão do palácio do governador.

Depois do furdunço todo, o saldo da quizumba era o seguinte: trezentos e tantos franceses mortos, quatrocentos e poucos presos – dentre eles o próprio Duclerc, que acabou misteriosamente assassinado em sua prisão domiciliar – e outros tantos feridos. O governador, saído do estado de letargia, permitiu que a semana seguinte à vitória fosse dedicada aos festejos populares – como se a população precisasse de alguma autorização do Vaca para celebrar a vida.

A ironia é irresistível. Que me desculpem os fãs da política de segurança dos governos. Os fatos históricos indicam, sem a menor margem de dúvidas, que o maior secretário de segurança pública da história do Rio de Janeiro foi mesmo Santo Antônio. Estou com ele e não abro. Revelam, ainda, a enorme capacidade da população do Rio para dar nó em pingo d’água e se organizar na mais absoluta desordem.

O risco maior é mesmo a síndrome de Castro Morais. Vez por outra o espírito do Vaca gruda no cangote dos nossos governantes e o poder público não cumpre a sua parte, não faz o que deve ser feito e ainda corre o risco de se meter onde não devia. De festa a gente entende; administrar o babado é que são elas. A vocação do Rio, salvação e danação da nossa gente, é, afinal de contas, amanhecer cantando.

Quanto a Santo Antônio, resta dizer que este é craque. Sincretizado com Ogum nos candomblés da Bahia, com Xangô, em alguns candomblés do Recife, e até com Exu, em vários terreiros cariocas, mereceu inclusive ser homenageado com uma curimba das mais populares em nossas macumbas, que o vincula ao povo da rua:

Santo Antônio de batalha
Faz de mim batalhador
Corre gira, pombagira,
Tiriri e Marabô.

 

 

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Pré-venda de “Ode a Mauro Shampoo e outras histórias da várzea”

19437413_1532471166824871_5822385459914468664_n Tem pré-venda na área! Comprando o novo livro de Luiz Antonio Simas, “Ode a Mauro Shampoo e outras histórias da várzea“, até às 16h do dia 30/06, você leva para a casa um exemplar autografado e ainda concorre a uma camisa do Paysandu de 1965. Os livros serão enviados a partir do dia 03/07 e o frete é grátis para todo o Brasil.

As 32 crônicas do livro são uma forma de resistência ao futebol moderno, tratado como negócio e espetáculo. Nos textos, que valorizam os chamados “times pequenos”, as derrotas são tão valorizadas quanto as conquistas, e a várzea é considerada qualquer terreno onde o futebol inventa a vida. Saiba mais.

O lançamento da publicação será no dia 01/07 às 14h, na Livraria Folha Seca, na Rua do Ouvidor. Confirme sua presença em nosso evento no Facebook e convide seus amigos.

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Caboclo da Vila

Com a proximidade dos 80 anos da morte de Noel Rosa, a Mórula homenageia o sambista com o lançamento de “Conversas de Botequim“, reunião de 20 contos inspirados nos títulos de suas canções, escritos por 20 autores de diversas partes do Brasil. O texto abaixo, sobre o compositor, é de autoria de Luiz Antônio Simas e integra o livro “Pedrinhas Miudinhas“.


Noel Rosa é um dos inventores do Brasil, gênio da raça. Deveria ser ensinado nas escolas, cantado nas universidades, bebido nos botequins, saudado nas esquinas e reverenciado nos terreiros.

Noel Rosa é Exu e Oxalá ao mesmo tempo – homem da rua, dono do corpo, malandro maneiro, azougue de céu e terra, civilizador afoito e velho sábio. Feito Obatalá bebeu o vinho de palma, dormiu na sombra da palmeira, largou a medicina como se larga a tarefa de Olodumare, zombou da sorte, não criou o mundo mas moldou no verso – ritmado em samba – o homem.

Noel Rosa é tapa na cara do preconceito e prova evidente de que o maior elemento civilizador do Brasil é o samba. Não pensou em remover favela – subiu o morro, aprendeu, ensinou, bateu, levou e inventou a vida entre o pandeiro e a viola. Branco azedo entre os pretos, feito camisa do Botafogo.

Noel Rosa é conversa de botequim, futebol no rádio de pilha, conta pendurada, caldo verde pra curar ressaca, conversa fiada, sacanagem no portão, punheta de garoto, pêra uva maçã salada mista, selo carniça nova, pipa no céu, bola ou búlica, vida pela sete, com tabela na caçapa do meio. Brasil que gosta do Brasil.

Noel Rosa é festa da Penha, novena, quermesse, tambor de mina, sessão de mesa, doce de Cosme, baile nos infernos, flor e navalha, afago e pernada, gol de letra e gol de mão, pomba da paz e galo de rinha, Estácio, Tijuca, Vila – o Brasil que sabe, e Morengueira confirma, que em casa de malandro o vagabundo não pede emprego.

Noel Rosa viveu no tempo em que do morro da Mangueira se enxergava a Vila Isabel. Hoje, entre o Buraco Quente e o Boulevard, existe o prédio da Universidade do Estado do Rio de Janeiro pra esculhambar a vista – e não se ensina o poeta, e não se canta o poeta na universidade: Pior pra ela.

Noel Rosa nunca morreu; encantou-se em Vila Isabel aos vinte e seis anos, feito Mestre da Jurema, Zé Pilintra, caboclo de pena, boiadeiro de laço, erê de cachoeira, bugre do mato, malandro da encruza e exu catiço.

Noel Rosa é da família dos encantados que moram nas esquinas, campos de várzea e botecos vagabundos, e baixam quando a noite é grande e a cachaça é farta: Mané Garrincha, Aleijadinho, Bispo do Rosário, João da Baiana, Cartola, Mãe Senhora, Geraldo Assoviador, Villa Lobos, Bimba, Pastinha, Camafeu de Oxóssi e Lima Barreto são da mesma guma de ajuremados – os caboclos nossos, brasileiros.

Noel Rosa é.

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Lançamento de ‘Vozes a favor do golpe!’

Como o discurso anticomunista foi reverberado no Brasil no pré-golpe de 1964 é o que o novo livro de Pâmella Passos procura demonstrar. A partir da análise de materiais produzidos pelo Instituto de Pesquisa de Estudos Sociais (o Ipês), a autora mostra como essa propaganda colaborou para a produção e reprodução de um imaginário anticomunista no país, capaz de ser um dos pilares de sustentação do golpe civil-militar de 1964.

Vozes a favor do golpe! O discurso anticomunista do Ipês como materialidade de um projeto de classe está disponível para download gratuito no site da Mórula.  O livro é resultado da pesquisa de mestrado realizada pela autora no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) entre os anos de 2006 e 2008. O período pesquisado vai da fundação do Instituto, em 1961, até o golpe de 1964, momento em que houve no Brasil um acirramento das polarizações ideológicas. Como escreve a autora, “nesse enquadramento temporal, pretendemos investigar as relações de poder relativas ao tema, buscando discutir as crenças e as representações expressas no material de propaganda produzido pelo Ipês, como parte da luta ideológica que então era travada”.

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Capa do livro disponível para download gratuito

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Adriana Facina aponta que a pesquisa nos dá mostra da competência da elite brasileira em forjar um projeto de dominação. “A preparação do golpe de 1964 precisou da propagação do medo e de uma propaganda que associava o governo João Goulart à corrupção (inclusive moral) e à ameaça comunista. No discurso foi construída a materialidade que as armas sacramentaram. Igreja Católica, mídia hegemônica, empresários, latifundiários, intelectuais organizaram o caminho por onde os tanques triunfaram”, escreve no prefácio da obra.

A professora Lená Medeiros de Menezes, que orientou a pesquisa e assina a apresentação, relata que a obra trata dos caminhos seguidos pelo país no contexto da Guerra Fria, “no qual os comunistas tornaram-se inimigos  declarados e o ‘perigo comunista’ motivação para vigilância, controle e repressão sobre muitos brasileiros”. A importância deste livro, para ela, está principalmente porque “permite uma melhor compreensão de um tempo de conturbações, no qual o deslocamento da Guerra Fria para a América Latina (…) fez ressurgir um agressivo discurso anticomunista e contrarrevolucionário”.

_Sobre a autora

Pâmella Passos é professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ), doutora em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e mestre em História Política pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), onde também concluiu a graduação em História. Foi uma das organizadoras do livro Política Cultural com as periferias: práticas e indagações de uma problemática contemporânea (2013).

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Leia mulheres

Perguntamos à enorme equipe que trabalha na mórula (4 pessoas) as autoras lidas nos últimos dois anos. A partir disso fizemos uma lista com as recomendações. Não são os melhores livros, nem os mais importantes ou representativos. Esta é apenas uma lista de 10 livros que 4 pessoas bem diferentes, mas que adoram literatura, leram nos últimos meses e gostaram.

Nossa ideia aqui é ser diverso. Porque há livros de mulheres sobre tudo. Mulheres escrevem poemas, biografias, ensaios, romances, não-ficção, contos, livros-reportagem, quadrinhos…  Mulheres escrevem best-sellers e independentes. O que as mulheres não conseguem é publicar em pé de igualdade com os homens.

Se 72% dos livros publicados no Brasil são de homens brancos, imaginamos que hoje, dia 8 de março, um bom presente é se perguntar: “quantos livros escritos por mulheres você leu no último ano”? Aproveita o dia para tirar uma autora da estante!

#NãoDêFlores #LeiaMulheres

 

Tudo ou nada, de Malu Gaspar (Record)

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Flores azuis, de Carol Saavedra (Companhia das Letras)

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Histórias de leves enganos e parecenças, de Conceição Evaristo (Malê)

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O vento que arrasa, de Selva Amada (Cosac Naify)

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A guerra não tem rosto de mulher, de Svetlana Aleksiévitch (Companhia das Letras)

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Uma autobiografia, de RIta Lee (Globo)

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A amiga genial, de Elena Ferrante (Biblioteca Azul)

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Poemas, de Wislawa Szymborska (Companhia das Letras)

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Entre umas e outras, Julia Wertz (Nemo)

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Só as mulheres sangram, de Lia Viera (Nandyala)

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Camisas O Meu Lugar

A camisa "O meu lugar"
A camisa “O meu lugar”

A marca de camisas Poeme-se realizou um desejo de muitos leitores da antologia “O meu lugar” e a capa do livro virou estampa.

A Poeme-se é conhecida por trabalhar com produtos literários de alta qualidade e que prezam pela diversidade. “A Poeme-se, empresa-verso que nasceu no subúrbio do Rio, tem uma ligação grande com o território e valoriza muito a dimensão simbólica e afetiva desenvolvidas nesses espaços. Exatamente por isso faz sentido uma parceria tão especial como essa”, conta Gledson Vinícius, fundador da marca, sobre a parceria com a mórula.

Gledson e Leionardo, os proprietários da Poeme-se
Gledson e Leonardo, os proprietários da Poeme-se

O Lançamento da coleção

Para o lançamento da coleção, além da camisa com a capa do livro, é possível adquirir camisetas de seis bairros presentes na antologia: Madureira, Realengo, Copacabana, Lapa, Vila Isabel e Tijuca.

A Poeme-se ainda lançou uma promoção, basta fotografar o lugar que você considera como seu e especial e marcar a hashtag #OMeuLugar para concorrer ao sorteio de algumas camisas. Mais informação aqui.

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PTSC #24

Foto: Rodrigo Macedo
Foto: Rodrigo Macedo

Sr. ou Sra. Leonor? Como? Leonora? É Leonor e é senhora, mas nem tão senhora, embora tenha um filho de 15 anos. É que foi mãe cedo, aos 19 anos. E além do Lucas – seu filho – essa gestação gerou mais um rebento, o livro ENEOTIL: mãe é pra quem a gente pode contar tudo, mas não conta nada. Com muito humor e afeto, ela conta que ser mãe é uma briga constante entre emoção e razão, a vontade egoísta de não deixá-lo ir e a lembrança da vida que você queria ter quando tinha a idade dele.

Namorando a Mórula há um tempinho, lança o livro agora em março pela editora. Tem ainda uma promoção pra quem não puder ir ao lançamento: comprando o livro pelo site da editora até dia 1º de março recebe o livro autografado em casa com frete grátis.

Com vocês, Leonor Macedo, a @subversiva, corintiana, mãe do Lucas e jornalista, nosso ser complexo #24

_O subtítulo do seu livro é “mãe é pra quem a gente pode contar tudo mas não conta nada”. Se soubesse mais da vida do Lucas você lançaria o quê, uma enciclopédia?

Acho que toda mãe poderia lançar uma enciclopédia do próprio filho, se a gente resolvesse abrir a boca (também sou filha que não partilha tudo com a própria mãe)!

Eu-Receberia-as-Piores-Noticias-dos-Seus-Lindos-Labios

UM LIVRO

“Poucas vezes me senti tão confortável no mundo. E, no entanto, sofria, por antecipação, o grande vazio que seria o resta da minha existência sem ela.

O que acontece é que, quando estou com você, eu me perdoo por todas as lutas que a vida venceu por pontos, e me esqueço completamente que gente como eu, no fim, acaba saindo mais cedo de bares, de brigas e de amores para não pagar a conta. Isso eu poderia ter dito a ela. Mas não disse.”

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios
Marçal Aquino
Companhia das Letras, 2005

_Julio Bernardo [no texto apresentando seu livro] fala que você transforma maternidade em arte, assim como Sócrates dava passes de calcanhar. E no futebol, dá pra se comparar ao Doutor?

Talvez só no sonho de ver um futebol democrático e usado como instrumento transformador. Mas na habilidade para o futebol, minha nossa senhora. Eu até me arrisco e não jogo de todo mal, mas jamais me compararia ao meu grande ídolo corinthiano. Dentro e fora do campo.

_Você costuma dizer que tem nome de velha. O que seus pais falam sobre isso?

Eu transformei isso em uma piada, adoro meu nome. Quando era pequenina, eu sofria, queria um nome comum. Não me conformava em ter sido batizada Leonor, lembro que queria chamar Ana. Mas meu nome é uma homenagem a minha avó que não conheci e que tenho grandes afinidades. Meus pais sempre me contaram isso até eu aprender que era um nome quase exclusivo, praticamente só meu. Eles sabem que eu brinco com isso, então levam na brincadeira também.

_Um churrasco com cerveja gelada (sem TV) ou um jogo do Corinthians no estádio (sem cerveja)?

Se for um jogo do Corinthians no Pacaembu, não importa a falta de cerveja, o calor, ou a chuva. Não troco por nada. Agora, nessas novas arenas e frias, está difícil não preferir um churrasco com cerveja gelada (e o jogo do Corinthians no radinho).

_Diga aí um jogo do Corinthians inesquecível. E um “esquecível”. 

Posso viver mil anos e nunca vou esquecer da final da Libertadores na Bombonera, em 2012. A primeira vez que pisei no estádio do Boca foi em um jogo deles, em uma viagem turística para Buenos Aires. Foi em 2007 e pensei que queria muito ver um jogo do Corinthians lá. Calhou de ser uma final de Libertadores, a nossa primeira, a invicta. E eu fui. Faltou só o Lucas do meu lado.

E esquecível? Quando o Corinthians foi eliminado pelo Palmeiras na Libertadores de 1999. Não gosto nem de lembrar.

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Lançamento do ENEAOTIL em São Paulo

Eneaotil_ConviteLancamento_SPNo próximo dia 9 de março, uma quinta-feira, Leonor Macedo estará na Livraria da Vila (Fradique Coutinho) em São Paulo, autografando seu livro ENEAOTIL: mãe é pra quem a gente pode contar tudo, mas não conta nada. O livro reúne textos publicados no blog ENEAOTIL e outros inéditos sobre a vida de uma mãe solo – e ainda por cima aos 19 anos. Apesar das dificuldades, Leonor Macedo não perdeu o bom humor. Como ela lembra, começou a escrever sobre seu filho, o Lucas, quando ele tinha menos de dois anos e ela pouco mais de 20. “Estava descobrindo o mundo junto com ele. Jovem, mãe solteira, saindo das minhas próprias fraldas e trocando as fraldas de alguém”. Essa falta de experiência consegue nos fazer rir e chorar às vezes num mesmo texto. Como aponta Renata Corrêa no prefácio, este livro é um “não manual, cheio de humor, afeto, acolhimento. Um abraço gostoso de vai ficar tudo bem”.

Escrevia, imprimia e guardava em casa. Depois decidiu publicar um blog – o ENEAOTIL – com os relatos e foi quando percebeu que não estava só. Ao compartilhar suas histórias ajudava outras mulheres como ela. Com um texto leve, Leonor, corintiana roxa, conta as aventuras (suas e do Lucas) com um olhar de mãe preocupada, com medo, mas principalmente com muito amor pela sua cria. Ou como escreve Julio Bernardo na orelha, Leonor “transforma maternidade em arte, de maneira tão única quanto Doutor Sócrates dava seus inesquecíveis passes de calcanhar”.

Lucas, hoje com 15 anos, também participa do livro para além do personagem. É autor do desenho de capa, feito quando tinha três anos, e assina a quarta capa, onde diz que não se sentia envergonhado com a exposição de suas façanhas e que “o livro não é feito só das histórias. Ele é feito de muito amor e carinho que compartilhamos um pelo outro, além de muita camaradagem”.

Este é o livro de “uma mulher que jogou fora o roteiro e escolheu a si mesma como modelo”, lembra Renata no prefácio. E se a ideia original era um dia juntar todas as histórias que escreveu e entregar para o Lucas no seu aniversário de 21 anos, o presente chega com alguma antecedência.

_Sobre a autora

Leonor Macedo é mãe do Lucas e corintiana em tempo integral. Nas horas vagas é jornalista, roteirista e mantém o site Vila Pompeia, sobre o bairro onde vive. Como tem uma péssima memória, criou o blog ENEAOTIL contando suas peripécias com Lucas porque tinha medo de esquecer e não saber contar para ele sua própria história.

_Lançamento

DIA: 9 de março (quinta-feira)
HORÁRIO: 18:30h
LOCAL: Livraria da Vila
Rua Fradique Coutinho, 915
Vila Madalena – São Paulo-SP

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