Prefácio de Milton Cunha para a segunda edição de Pra tudo começar na quinta-feira: o enredo dos enredos, de Luiz Antonio Simas e Fábio Fabato
E que bom que a própria mestra Rosa Magalhães virou enredo; e samba-enredo!
E como ela disse que o enredo é o “ponto de partida” do trabalho da escola de samba, concordando e complementando, é o “ponto de chegada” também. Porque todos os aspectos do desfile chegam nele: alegorias, fantasias e samba, tendo a procissão festiva o desafio de amarrar partida e chegada.
O enredo, conjunto de ideias próprias que configuram a carta de intenções do que a agremiação colocará na avenida no ano seguinte, em desfile, serve como uma bússola, ou ainda texto mestre, cujos parágrafos dão “as pistas” de como o conteúdo será narrado: crítico? Professoral? Cronológico? Estilhaçado? Respeitoso? Religioso? Debochado? Nonsense? E isso vai criar, nos assistentes, a expectativa de antever um “clima” do que foi anunciado.
Portanto, quando os autores deste livro se debruçam para esmiuçar (e iluminar) o enredo, este empreendimento ganha importância de primeira linha, pois aponta para o entendimento cultural do desfile das escolas de samba, protagonizado por periféricos, que como artistas populares, desejam ocupar o centro da cidade com suas criações e narrativas. Um estudo em lupa para demonstrar a variedade dos recortes, montando um leque de possibilidades dos ângulos de visão, que vai diferenciar um mesmo tema na mão de dois carnavalescos diferentes.
Carnavalizar com inteligência sugere a transgressão do pulo do gato, sem o chatíssimo copia e cola, pois como nos ensinou os mestres, Rosa e João, há de se ter coragem para também usar o enredo como delirante confusão.
Milton Cunha é carnavalesco, cenógrafo, psicólogo, professor e comentarista de carnaval.


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