Quem já se deparou com a mitologia do primeiro samba mais conhecido do país vai se lembrar dos versos iniciais de Pelo Telefone: “O chefe da polícia, pelo telefone, manda me avisar; que na Carioca tem uma roleta para se jogar”. Essa crônica de mais de cem anos brinca com a figura pública num tempo em que o Rio de Janeiro refletia sobre repressão e perseguição ao jogo e à vida na rua. Mas que chefe da polícia era esse?
Vem daí a pesquisa de Laila Maia Galvão: contar quem era Aurelino Leal, um baiano formado em Direito e cuja pretensão inicial era se firmar em cargos políticos. Ele acabou chefiando a polícia da capital federal. Daquele Rio de Janeiro dos anos 1910, ficou a música, não essa história revelada agora numa espécie de meia-biografia — O chefe da polícia, pelo telefone —, com a trajetória dessa figura marcada para sempre. Por um samba eterno.
Reproduzimos abaixo um trecho do nono dos 14 capítulos do livro: Março de 1917.
No Rio de Janeiro, o ano de 1917 começou — literalmente — quente. Uma onda de calor nos dias finais do mês de janeiro causou 24 mortes por insolação. A “calamidade do calor”, era a chamada de capa do jornal A Noite, informando também que a temperatura máxima no dia 30 de janeiro alcançava 32,3 graus. Por conta dessa excepcionalidade, num mundo onde ainda não havia ar-condicionado, algumas repartições públicas autorizaram seus funcionários a não trajarem terno. Tal medida foi tomada pelo ministro da Fazenda, sendo logo imitada por Aurelino Leal e os integrantes de seu gabinete na Polícia Central. O presidente Wenceslau Braz já estava despachando em Petrópolis, onde o clima montanhoso era mais ameno. Em fevereiro, no carnaval daquele ano, a música Pelo telefone fazia grande sucesso.
O restante do ano de 1917 foi particularmente tenso, no Brasil e no mundo. Havia grande inquietação por conta da guerra na Europa e seus efeitos. Também 1917 é o marco da revolução bolchevique na Rússia que, apesar de estar distante do Brasil, ganhava força no imaginário da população. Esses ventos revolucionários também alcançavam o outro lado do mundo.
Passado o carnaval de 1917, em um mesmo dia eram realizados três comícios operários — em Laranjeiras, em Ramos e em Paracambi. As organizações de trabalhadores estavam cada vez mais mobilizadas. No comício de Laranjeiras, os oradores se assumiam como anarquistas, mas diziam estar ali não para tratar de anarquismo, mas para protestar contra a miséria e a fome. Ao som de muitos aplausos, o sr. Juvenal Leal concluiu seu discurso: “Por toda essa miséria que nos assoberba há um único culpado — nós, companheiros! Se não fora a nossa covardia, já tínhamos saído desta apatia criminosa e reagido desassombradamente contra os exploradores comerciantes-ladrões”. Em todos esses comícios, havia vários policiais presentes, para não “se alterar a ordem pública”.
A polícia, naquele momento, se via bastante ocupada por lidar com mais uma crise com o grupo Mão Negra, mas que dessa vez nada tinha a ver com extorsões na área do Mercado. A imprensa noticiava algo que não era propriamente uma organização criminosa, mas sim a atuação de determinadas pessoas que estavam usando telefones para passar trotes:
Ainda ontem, no 4º distrito, um sujeito deu queixa e, mais tarde, pelo telefone, retirou-a, alegando que um camarada, rapaz de muito espírito, é que lhe tinha pregado a partida, ameaçando-o para que fosse depositar dinheiro no largo de S. Domingos. Passada a meia hora do susto, o tal espirituoso explicou-se, rindo ambos. O diabo é que o queixoso não deu o nome, nem disse quem era o camarada
No 6º distrito, com base nas ameaças da Mão Negra, cerca de vinte residências ou estabelecimentos comerciais teriam pedido a proteção da polícia. No 7º, foram mais de quarenta pedidos. As ameaças, que costumavam ser feitas por 93 carta, passavam a ser feitas cada vez mais por telefone, como ocorreu com o sr. Nunes Benilde, que morava na Rua Barão de Petrópolis, número 102. Ele atendeu o telefone e ouviu do outro lado da linha, entre gargalhadas, a voz de alguém que mandava ele se preparar, pois a Mão Negra iria agir.
Com essa enorme quantidade de comissários deslocados para fazer guarda de estabelecimentos comerciais e residências, a polícia passou a ficar desconfiada de se tratar de uma estratégia para bagunçar o policiamento na cidade. De repente, o número de ligações com ameaças se multiplicou exponencialmente, e não era mais possível desconsiderar o problema. Figuras da elite e políticos, como o senador Costa Rodrigues, recebiam ameaças. O próprio Aurelino Leal recebeu uma dessas comunicações de que sua residência seria visitada pela quadrilha.
Aurelino Leal ainda achava que tudo não passava de uma grande brincadeira, de uma “reportagem à moderna” de algum jornal “desabusado”. Aqui, provavelmente o chefe da polícia fazia referência a ações de jornais como o A Noite, que em 1913 colocou a tal roleta no Largo da Carioca em plena luz do dia para zombar da fala do ex-ocupante do cargo sobre “jogo franco”. Outras autoridades policiais acreditavam ser alguma estratégia da Associação de Resistência dos Caftens, dos cafetões da época, para desviar a atenção da polícia, que andava empenhada em prendê-los. Havia teorias de que seria uma espécie de propaganda para algum novo filme lançamento sobre a Mão Negra ou então de algum sabão especial a ser apresentado ao mercado.
Mas as ameaças tornaram-se efetivas. Em um prédio da praia de Botafogo, ladrões saltaram o muro e caíram no pátio dos fundos da casa. Um dos vigias da casa disparou fogo contra os invasores, e logo houve um tiroteio. Os ladrões fugiram e passaram a ser perseguidos também por agentes da polícia, estando presente o delegado Franklin Galvão. Na praia do Flamengo, naquela mesma noite de 21 de março, ladrões entraram pelos fundos da casa. Como os integrantes da família tinha recebido ameaças por carta e por telefone, estavam armados e começaram a disparar pela varanda. Mesmo tendo escapado, os invasores deixaram uma mensagem: “Cá voltaremos breve — M. N.”. Até mesmo uma das delegacias teria sofrido ameaça. A Mão Negra telefonou para a circunscrição do 13º distrito para dizer que a sede seria assaltada.
Após a confirmação de que as ameaças eram reais, como numa crônica de Nelson Rodrigues, noticiava-se a noite do dia seguinte como a “mais familiar” da cidade do Rio de Janeiro. Por conta das ameaças da Mão Negra, as mulheres tinham “prendido os maridos em casa”, e “as mães haviam pedido aos filhos que não as abandonassem”. Estavam todos trancados em suas residências, e o clima de vigília dava um tom festivo àquela forçada reunião familiar.
Diante da crise, o gabinete do chefe da polícia emitiu um comunicado dizendo que boa parte das ameaças do Mão Negra eram “pilhérias de mau gosto” e aproveitava para listar e divulgar de onde vinham as ameaças telefônicas. Alguns números de telefone foram publicados, sendo um deles um telefone público na Rua Vinte e Oito de Setembro, outro de uma pensão na Rua Sete de Setembro e de uma fábrica à Rua Visconde do Rio Branco. E o comunicado terminava com a seguinte mensagem de ameaça aos ameaçadores: “As pessoas envolvidas nesta pilhéria grosseira vão ser detidas no Corpo de Segurança”.
No jornal A Noite, reconhecia-se que, muitas vezes, uma suposta ameaça da Mão Negra era apenas um ato de vingança contra um inimigo: “É sabido que o principal veículo de aterradora pilhéria da Mão Negra é o telefone. Quantas vezes 95 essa simples pilhéria é uma terrível arma de vingança!”. E lançavam o apelo que todos os detentores de aparelhos telefônicos proibissem seu uso para esse fim. Mas, com o cerco da polícia aos telefones e após algumas prisões efetuadas, as ameaças voltaram a ser feitas pelo meio tradicional da carta escrita.
Depois do sucesso da música Pelo telefone no carnaval, a letra se tornou, depois, uma espécie de dispositivo de crítica, incluindo o episódio da Mão Negra. A coluna de Cyrano & C. no Correio da Manhã brincava sobre as possíveis novas versões da letra:
A tal de Mão Negra
Pelo telefone
Mandou me dizer
Que a nossa polícia
Nem tendo a notícia
Pode a Mão prender
O Chefe da Polícia
Pelo telefone
Mandou me avisar
Que os gordos carecas
Lá pelas Marrecas
Não podem passar!
O Mello Albuquerque
Nas praias não-quer-que
Se ande de calção;
E prende o banhista
Que ali não se vista
De calças balão
A tal de Mão Negra
Pelo telefone
Mandou me dizer
Que a nossa polícia
Nem tendo a notícia
Pode a Mão prender
Diz seu Aurelino
Que é chefão ladino
Que é jurista até
— Rio de Janeiro
Tem muito bicheiro
Pra se fazer fé…
Delegué d’la zone
Pelo telefone
Deu-me um palpitão
No antigo — cavalo
No moderno — galo
No Rio — pavão
E a coluna ainda dizia haver melhores refrões que esses. O nome de Aurelino Leal se tornava piada, e todos os casos importantes da cidade se tornavam chacota.
(…)
Ilustração da capa do livro: Ana Laterza
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