A bomba — leia conto de David Butter, finalista do Jabuti

A bomba e outros contos de futebol, de David Butter, foi finalista do prêmio Jabuti. São 20 contos e um poema que têm no futebol um horizonte, já que o jogo, o campo e a bola sempre deram ao autor, como o próprio escreve no prólogo, a “moldura” da vida. Apresentamos abaixo o texto A bomba, que dá nome ao livro.

A bomba

EURECA. Quando Arquimedes de Siracusa descobriu que poderia medir o volume e a densidade de um objeto irregular afundado pelo deslocamento de água, o gênio grego estava em sua banheira, de onde saiu gritando εὕρηκα. Quando vislumbrei uma demonstração plausível para a Hipótese de Sárosi, eu, Stephen Oybee, vinte e sete anos de idade, torcedor do Charlton Athletic e matemático, estava comprimido entre bêbados a caminho da Final da Copa da Inglaterra — e nada disse.

O dia: 26 de abril de 1947, sábado, há talvez três, quatro, cinco, seis dias. Saí de Cambridge bem cedo, num ônibus fretado por alguns colegas de faculdade — registrado o inconveniente de serem os passageiros, na maioria, torcedores do Burnley, o adversário da vez. O Charlton buscava apagar a memória do ano anterior, quando havia deixado passar a Copa para o Derby County, na prorrogação. Em 1946, compromissos haviam me agarrado longe de Londres no dia da decisão. Em 1947, larguei o que tinha, e fui para o Estádio de Wembley.

O problema é que para certas atividades algumas pessoas nunca delimitam um fim — e eu sou uma dessas pessoas com uma dessas atividades. Sou pesquisador em Matemática no King’s College de Cambridge, com concentração em Matemática Pura e queda pela Teoria dos Números. Deveria, quem sabe, ser mais sistemático. Não sou. Até hoje, as ideias me acossam nos intervalos entre ações tidas como mais importantes. De raro surgem quando estou em aula, ou sentado revisando meus materiais. Como cães manhosos pedindo cafuné, as ideias me acessam ao me avistarem em trânsito, em fluxo. Se levanto para ir ao banheiro, elas chegam. Se pego um trem. Se tomo um café com pressa. Sem etiqueta, as ideias até me lambem, sempre fora de hora. São impertinentes a ponto de me ignorarem quando decido sair de forma consciente para achá-las. Nas vezes em que arrisquei caminhar para ser “criativo”, sempre terminei me confirmando como idiota. Vivesse na Grécia antiga, eu seria o mais caótico dos peripatéticos. Minha cabeça vomita, não se disciplina.

Foi assim naquele sábado de primavera, na estrada. Na A10, na altura de Hertford, fui assaltado pela memória visual da função zeta de Sárosi, base da subestimada Hipótese de Sárosi, com que trabalho nos meus estudos sobre os intervalos entre números primos. Enquanto o resto do ônibus se dividia entre dormir e gritar, tomei emprestada sem pedir a caneta pendurada no bolso da frente de um dos bêbados ao meu lado, e saí delineando uma série de premissas nos cantos de página de um jornal que eu levava comigo. Na hora e quarenta de jornada entre Hertford e os arredores do Estádio de Wembley, as premissas viraram equações que se transformaram em funções que se converteram em extrapolações, um promissor ensaio de demonstração escrevinhado entre notícias sobre a agitação na Palestina, o naufrágio de um barco salva-vidas na costa de Gales e a expectativa para a Final da Copa da Inglaterra.

Desci do ônibus com o jornal amarfanhado em um dos bolsos do paletó, com a forte impressão de ter esbarrado em algo grande nas minhas explorações, e acompanhei meu grupo enquanto se dissolvia na massa rumo ao estádio. Do que se seguiu nas próximas duas, três horas, eu me lembro bem:

Wembley cheio. Lenços agitados. Bartram; Croker e Shreeve; Johnson, Phipps e Whittaker; Hurst, Dawson, Robinson, Welsh e Duffy. Na minha conta, seis jogadores da Final anterior, mais Jimmy Seed no comando técnico. O Charlton de camisa branca, detalhes vermelhos; shorts pretos; meias listradas em vermelho e branco. Uma bola furada. Duffy dançando na ponta-esquerda diante de Woodruff — seis, sete, oito, nove fintas para enganar o marcador, até escapar para a linha de fundo e cruzar, sem sucesso. Um chute do Burnley na trave, que jurei ver lá dentro. O Charlton forçando pelas pontas. O Burnley mais defensivo, em busca de espaço e contra-ataque, e nisso achando chances melhores. E, como em 1946, prorrogação. O Burnley sempre perigoso nas jogadas aéreas. Daí, perto do fim, à beira da declaração de um novo jogo, uma bola disputada no alto, dessa vez no nosso ataque: Welsh na briga, a sobra para Duffy, um chute de primeira, cruzado — gol. Pulei, tremi, berrei — fui naquela janela o menino que eu era em 1935, 1936, quando o Charlton subiu duas vezes seguidas e atingiu a Primeira Divisão.

(Abre parêntese: o que foi, foi, mas não posso deixar de especular sobre o que teria sido do Charlton não fosse a Guerra. Na última temporada completa antes do conflito, havíamos terminado na terceira posição da Primeira Divisão, vindos de uma segunda e de uma quarta posição nas duas temporadas anteriores na elite. Tínhamos chegado lá, mas daí veio a Guerra, que arrastou a mim e a todos de minha geração à morte ou a outras vidas. No meu caso, a outra vida veio na forma do meu serviço em Bletchley Park, entre 1942 e 1945, onde atuei sobre o ombro de gigantes — alguns deles antigos professores meus na graduação. Por estar em BP, pegado, não pude, por exemplo, ver o Charlton vencer o Chelsea, na Copa de Guerra, região Sul, em 1944… digamos, a título de exposição, que o meu interesse lateral por números computáveis tenha sido minimamente útil ao esforço de guerra, ajudando a atrapalhar, ainda a título de exposição, a chegada de mais bombardeiros alemães aos nossos céus. Fecha parêntese.)

Mas falava do presente ano de 1947, do gol de Duffy, nosso camisa 11 — que não posso deixar de notar ser um número primo. Extraídos os fatores de minha formação — do local onde nasci e cresci, o Sudeste de Londres — e do quanto a Guerra nos tirou em diferentes sentidos, talvez sobre pouco para explicar o quanto fui impactado por aquele chute forte. Foi, para mim, um acontecimento ao mesmo tempo cósmico e indissociavelmente meu. Tudo o que viveu e morreu ou que se moveu por ação própria ou externa em qualquer momento da existência do universo poderia caber ali, no intervalo entre a rebatida e o pontapé limpo de Duffy: tremendo, aguardando, à espera.

Saí do estádio numa espécie de êxtase seco — que logo se encharcou num pub nos arredores. Parti de trem da estação Wembley rumo a Charlton em estado cantante. Desci na estação da Ponte de Londres, voltei a me refrescar e cheguei, sabe-se lá como, aos arredores do velho Bugle Horn, em Charlton, onde brindei mais. Da noite que já tomava conta só me lembro de enxergar vermelho e branco por onde olhasse. Vermelho e branco até quando me senti cair, escorregar na lama e bater num fundo.

É desse fundo, que imaginei ser parte de um sonho, de onde escrevo. Minha perna direita está quebrada, assim como meu relógio de pulso. Ao alcance do meu braço, jaz na parede do barranco o que parece ser uma bomba não-detonada. Meu lote: definhar enterrado junto a uma bomba improvável, feita para explodir na superfície. Do topo, no alto a quinze, vinte metros, só enxergo a fresta da luz tênue de um dia que não sei precisar qual, por não saber quanto tempo dormi desmaiado. A presença desse explosivo nessa profundidade é mais implausível do que a minha. Gritei por ajuda até perder a voz. Tenho a sede de um morto.

Dada a apreciável chance de eu não ser encontrado vivo a tempo, o leitor destas bordas de jornal deve saber que nelas escreveu um homem com uma caneta emprestada. Contem à minha mãe que deixei cartas atrás da velha cômoda, e a consolem. Levem flores também ao túmulo do meu irmão. Sobre as demonstrações matemáticas contidas nestas bordas, peço a gentileza de as encaminharem aos meus colegas de departamento, para que as desdobrem ou as descartem.

De uma forma ou de outra, eu venci.

nota: O manuscrito completo de Oybee, do qual o relato anterior faz parte, foi encontrado no dia 10 de maio de 1947, junto ao corpo do jovem matemático numa área próxima ao Charlton Park. Do fosso de onde foi retirado o corpo de Oybee, especialistas do Corpo de Engenheiros Reais escavaram também uma bomba alemã, não-detonada, de alto poder explosivo, de quase meia tonelada. O tratamento de Oybee à Hipótese de Sárosi foi estudado por dezenas de matemáticos nos anos subsequentes e consolidado em 1956 na chamada Prova de Czibor, da pena do matemático húngaro Z. Czibor.

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