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luiz antonio simas

Cosme e Damião

Dia 27 é dia de São Cosme e Damião e nós celebramos com um texto de Luiz Antonio Simas, em homenagem aos santinhos. O texto foi publicado no livro “Pedrinhas Miudinhas: ensaios sobre ruas, aldeias e terreiros”.

 

São Cosme e São Damião

Sou devoto amoroso do Brasil e dos seus encantamentos. Nesse ponto, e dou o braço a torcer, quem está certo é o velho compositor baiano: “quem é ateu e viu milagres como eu”… E nossos milagres, camará, são muitos, temperados por tambores e procissões; pela Virgem no andor, o caboclo na macaia e o preto velho no gongá. Somos, os brasileiros, filhos do mais improvável dos casamentos, entre o meu compadre Exu e a Senhora Aparecida – a prova maior de que o amor funciona. E Tupã, que se vestiu com o cocar mais bonito para a ocasião, celebrou a cerimônia entre a cachaça e a água benta.

Uma das nossas mãos está calejada pelo contato com a corda santa do Círio de Nazaré – a outra tem os calos gerados pelo couro do atabaque que evoca as entidades. As mãos do Brasil e do seu povo. Nossos ancestrais passeiam pela vastidão da praia sagrada dos índios de Morená, retornam à Aruanda nas noites de lua cheia, silenciam no Orum misterioso das almas e florescem encantados nas folhas da Jurema. Os guerreiros de nossas tropas trazem a bandeira do Humaitá, o escudo de Ogum e o estandarte da pomba branca do Divino Espírito Santo – a mesma pomba que pousou na ponta do opaxorô de Obatalá. São essas as nossas divisas de guerra e paz; exércitos do Brasil.

E digo isso porque chegou o dia de Cosme e Damião. Dia brasileiro dos santos estrangeiros e orixás africanos. Dia de igreja aberta, missa campal, terreiro batendo, criança buscando doce, amigos bebendo saudades e aconchegos. Dia de comer caruru na rua. A tradição brasileira de Cosme e Damião é a mais festiva do mundo. O bom, nessas horas que antecedem as folganças dos santos gêmeos, é vadiar no clima da folia, tomando pinga e ouvindo umas cantigas bonitas sobre os protetores dos meninos. É hora de bater samba de roda pra Dois-Dois, na palma da mão e no ponteio da tirana.

Aqui em casa toquei a alvorada lembrando as cantigas mais bonitas que conheço em homenagem aos gêmeos. É de comover pedra! Quando ouço as louvações pros santinhos, tenho forte desconfiança de que ainda morro um dia de tanta belezura do Brasil – um amor que não se explica, feito cachaça da boa, jabuticaba, sorvete de cupuaçu, beira de rio, gol do meu time, cerveja gelada, mulher amada, amigos do peito e caruru de Cosme. E que no dia de cantar pra subir, um samba de roda desses me carregue ao encontro dos meus pela Noite Grande.

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Santo Antônio: Ogum, Xangô, Exu e secretário de segurança

No dia de Santo Antônio, resgatamos um texto de Luiz Antonio Simas presente no livro Pedrinhas Miudinhas.


Sei de muita gente que anda preocupada com os eventos previstos para a cidade do Rio de Janeiro nos próximos anos. Há quem diga que a cidade não suportará o crescimento do Carnaval, o furdunço da Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Minha opinião, nesse sentido, é muito clara: a população da cidade do Rio de Janeiro tem a tradição de enfrentar com galhardia as maiores confusões e transformar em festa (para o bem e para o mal) as situações mais desfavoráveis. Os riscos maiores se encontram, podem apostar, nas ações e negligências do poder público. Recorro à História para exemplificar.

Em 1710, pouco depois da notícia de que o ouro tinha sido encontrado em Minas Gerais, o rei francês Luís XIV resolveu enviar ao Brasil novecentos e tantos piratas, sob comando do capitão de fragata Jean-François Duclerc, para pilhar a cidade do Rio de Janeiro.

Os flibusteiros enviados pelo Rei Sol, temendo a barra estreita e as fortalezas da Baía da Guanabara, desembarcaram em Guaratiba, atravessaram os sertões de Jacarepaguá e as matas da Tijuca e rumaram em direção à cidade sem maiores problemas. Nesse momento entrou em cena o governador do Rio na ocasião, o português Castro Morais – apelidado pela população, que tinha o saudável hábito de não simpatizar com governantes, de ‘O Vaca’. Retifico a frase: Castro Morais, na verdade, saiu de cena.

Ao receber a notícia de que os homens de Duclerc estavam chegando ao Centro da cidade, Castro Morais tomou a mais inusitada decisão administrativa da história carioca em todos os tempos. Teve um ataque de covardia, se trancou no palácio governamental (no prédio onde hoje fica o Centro Cultural Banco do Brasil) e, de lá mesmo, mandou anunciar que estava passando, em ato administrativo, o comando das tropas ao novo chefe da segurança pública da cidade: Santo Antônio.

É isso mesmo. Santo Antônio, o casamenteiro, morto em 1231, foi oficialmente nomeado comandante das forças de segurança do Rio de Janeiro em 1710. Há quem afirme que uma pequena estátua do santo foi oficialmente empossada no cargo, em rápida cerimônia administrativa.

O pepino sobrou, evidentemente, para a população. As notícias deque o governador estava trancado no palácio sob cuidados médicos, tendo ataques nervosos, e de que Santo Antônio era o novo responsável pela defesa da cidade, levaram o povo do Rio a se virar. E nisso, admitamos, o carioca é especialista.

Os franceses – desgastados pela estratégia maluca de atravessar Jacarepaguá e a Tijuca a pé – foram emboscados no largo da Lapa e atacados das janelas com armas de fogo, óleo fervente, pedras, pedaços de pau, hortifrutigranjeiros e toda a sorte de quinquilharias domésticas. Milícias populares se organizaram com impressionante rapidez. O cacete estancou nas vielas do Centro, com especial destaque para combates corpo a corpo envolvendo escravos, índios, mulheres, crianças, bebuns, padres e devotos. Os estudantes do colégio dos jesuítas deram uma banana para as aulas, formaram uma inusitada artilharia de batinas e, desta forma, mandaram bala nos franceses e evitaram a invasão do palácio do governador.

Depois do furdunço todo, o saldo da quizumba era o seguinte: trezentos e tantos franceses mortos, quatrocentos e poucos presos – dentre eles o próprio Duclerc, que acabou misteriosamente assassinado em sua prisão domiciliar – e outros tantos feridos. O governador, saído do estado de letargia, permitiu que a semana seguinte à vitória fosse dedicada aos festejos populares – como se a população precisasse de alguma autorização do Vaca para celebrar a vida.

A ironia é irresistível. Que me desculpem os fãs da política de segurança dos governos. Os fatos históricos indicam, sem a menor margem de dúvidas, que o maior secretário de segurança pública da história do Rio de Janeiro foi mesmo Santo Antônio. Estou com ele e não abro. Revelam, ainda, a enorme capacidade da população do Rio para dar nó em pingo d’água e se organizar na mais absoluta desordem.

O risco maior é mesmo a síndrome de Castro Morais. Vez por outra o espírito do Vaca gruda no cangote dos nossos governantes e o poder público não cumpre a sua parte, não faz o que deve ser feito e ainda corre o risco de se meter onde não devia. De festa a gente entende; administrar o babado é que são elas. A vocação do Rio, salvação e danação da nossa gente, é, afinal de contas, amanhecer cantando.

Quanto a Santo Antônio, resta dizer que este é craque. Sincretizado com Ogum nos candomblés da Bahia, com Xangô, em alguns candomblés do Recife, e até com Exu, em vários terreiros cariocas, mereceu inclusive ser homenageado com uma curimba das mais populares em nossas macumbas, que o vincula ao povo da rua:

Santo Antônio de batalha
Faz de mim batalhador
Corre gira, pombagira,
Tiriri e Marabô.

 

 

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