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20 anos sem João Nogueira, um combatente da cultura popular

Por Bernardo Pilotto*

Há exatos 20 anos, aos 58 anos, falecia João Nogueira, devido a um infarte fulminante. Cantor e compositor, autor de grandes sucessos da música brasileira como “Espelho”, “As forças da natureza”, “Minha missão” e “Poder da criação”, João morreu na madrugada de 5 de junho de 2000.

Nascido no Méier, na Zona Norte do Rio de Janeiro, em 1941, João teve contato logo cedo com a música, a partir de seu pai João Batista Nogueira e de sua irmã, Gisa Nogueira. Aos 15 anos, já compunha músicas para o bloco Labareda, que agitava as ruas do bairro. Sua carreira profissional começou a deslanchar quando Elizeth Cardoso gravou “Corrente de aço” em 1969.

Na década de 1970 encontrou seu principal parceiro, Paulo César Pinheiro. Com ele, compôs alguns de seus maiores sucessos. Nessa década e na seguinte João também consolidou sua carreira como cantor, gravando 15 álbuns entre 1972 e 1988. Entre esses, destacam-se “Espelho”, “Boca do povo” e “Wilson, Geraldo, Noel”.

Seu modo de cantar seguiu a linha de outros mestres do samba, como Ciro Monteiro. Com uma forma própria de frasear as músicas, João era craque em cantar sambas sincopados.

Além da sua contribuição como cantor e compositor, João também foi um combatente a favor da cultura popular e das causas democráticas. Em 1979, fundou o Clube do Samba, um espaço de valorização do gênero, que naquele momento era deixado de lado em troca da música pop/dance. O Clube começou a funcionar em sua casa e depois foi se expandindo. Posteriormente, virou um bloco de carnaval, que até hoje faz seus desfiles.

A partir daí, conectado com as lutas democráticas que sacudiam o país, João lançou uma série de músicas que abordavam estes temas, como “Vovô Sobral”, “Canto do trabalhador” e “Chorando pela natureza”.

Além da sua participação no Labareda e na transformação do Clube do Samba em bloco de carnaval, João também teve intensa relação com as escolas de samba. Em 1972 foi admitido na Ala de Compositores da Portela (para tal, apresentou o samba “Sonho de bamba”), escola onde ficou até 1984, quando fez parte do grupo que saiu da escola para criar a Tradição.

Nos primeiros anos da nova escola, João foi fundamental. Ele é um dos autores dos 5 primeiros sambas-enredo da escola, momento que a agremiação subiu da quarta até a primeira divisão, numa ascensão impressionante. O primeiro samba-enredo, “Xingu”, de 1985, se insere no contexto das lutas democráticas daqueles anos.

Além da sua participação na Portela e na Tradição, João também desfilou em outras escolas, como a Mangueira, quando esta homenageou o amigo Chico Buarque, em 1998.

Na década de 1990 João seguiu gravando álbuns e compondo, ainda que já com alguns problemas mais sérios de saúde e num momento que as gravadoras andavam desprezando o samba – mais do que em outros momentos. São desse período os excelentes “Parceria – João Nogueira e Paulo Cesar Pinheiro” e “Chico Buarque, letra & música”.

Ao falecer, João deixou um grande legado, nos seus álbuns e nas suas ações concretas. Segue vivo, pois é sempre lembrado nas rodas de samba e nos carnavais.

* Bernardo é sociólogo e adora samba. Seus textos são encontrados também no @carnavalicia

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