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PTSC #6 :: Rodrigo Bodão

Foto: Francisco Valdean

O poeta, letrista de sambas e ladainhas, rubro-negro, batuqueiro, psicólogo e pesquisador Rodrigo Bodão é o novo entrevistado do PTSC. Com o lançamento de seu novo livro “22 devaneios de um poeta à deriva” já marcado para o próximo dia 9 de abril, no Sebo Baratos da Ribeiro, em Copacabana, Bodão responde com poesia e se diz exagerado em tudo. Ou melhor, em quase tudo: “Eu sempre fui um cara de excessos. Pra beber, pra fumar, pra comer, pra foder, pra porra toda. Menos pra trabalhar e estudar, nisso eu sou bem controlado…”, explica.

Com vocês o nosso ser complexo #6, um poeta à deriva, mas que sabe seu rumo.

_Você é um sujeito das redes sociais. Isso não atrapalha a vida fora delas?
Talvez atrapalhasse se houvesse realmente uma vida fora delas, eu diria. Eu vejo as redes sociais como mais uma dimensão da vida, virtual, mas não menos inserida, menos parte dela. Pelo contrário, eu sou um cara extremamente comunicativo, muitas vezes mais tagarela do que eu queria e esses espaços virtuais são, nada mais, nada menos, do que possibilidades de intensificar esse meu impulso de conversar e falar com as pessoas, mantendo-me conectado com elas.

Tem a coisa da superexposição, mas, enfim, não ajo nelas tão diferente do que faço normalmente, no dia a dia. Sou, como disse, tagarela, boca aberta, a exposição da minha vida sempre foi intensa, de minha parte mesmo. Lembro inclusive que muitos amigos por diversas vezes vinham me advertir de que eu me exponho demais, que não devia falar isso ou aquilo, que não é bom para minha imagem, meu lado profissional e tal. Bom, tal como nunca soube gerenciar isso bem na minha vida, isso vai acontecer também no facebook, nos blogs, em tudo quanto é canto. Falador passa mal, rapaz, mas é isso aí mesmo, fazer o quê, faz parte.

O pior mesmo é quando a coisa vai mais além do que já é excessivo, geralmente quando ficava bebendo de madrugada, principalmente… Aí, fodeu, sai tudo mesmo. E era sempre uma correria de manhã para remover as postagens antes que as pessoas lessem…

O que tenho que controlar um pouco é a mania de escrever poesias direto no facebook. Não por divulgar precocemente um poema. Pelo contrário, gosto disso. Além disso, adoro que meus textos e poemas sejam curtidos, comentados e compartilhados. Sou vaidoso e a resposta quase imediata das pessoas me agrada. O problema é que eu posto e não guardo, muitas vezes, o que escrevi, o que me faz perder alguns poemas. Mas estou dando um jeito nisso.

No mais, é tanta coisa que pode ser dita que prefiro responder com um poema que postei outro dia desses:

facebook
qual panopticon do fake
holly motors virtual
palco
ágora
pancake
capital e exposição
é controle
é putaria
que se estende em meu colchão
é tortura
é orgia
é trabalho
é diversãoé debate
verborragia
é invento e repetição
extensão do dia a dia
é cansaço
indignação

moralismos disfarçados
alegria de HD
onde surgem amizades
e mandamos se fuder

é um vício
é morcegada
é fuga e obsessão

é entrega
é potência
é a vida
é um vão

patente de um filho da puta
com cara de babaca
que enche o bolso de milhão

rede que nos prende e solta
oculta e remove:
é espelho e é ilusão

compartilha
comenta e ocupa
a vida
a orgia
e a solidão

e é por isso que eu lhe digo
nesse momento de pura explosão
o que sinto tão sincero
do fundo do meu coração:

facebook eu te amo!
só que não.

 

_O que seria um “poeta de calçada”? Você se vê assim?
Essa é uma definição temporária, mas nem por isso menos verdadeira, da minha poesia. Aliás, menos da poesia em si, suas imagens e reflexões, e mais do seu estado de espírito e do cenário habitual das criações e invenções. É, além disso, uma alusão e homenagem ao João Nogueira, poeta do samba e da vida que muito admiro.

Eu amo a rua, isso é fato. Mesmo quando estou em casa, a maior parte do tempo estarei na janela, você pode ter certeza. Adoro caminhar a esmo, perambular sem rumo certo, ver o que acontece, no que vai dar. Ver as modas, como minha avó costuma dizer. Parar num botequim e ficar ali vendo o movimento, o vai e vem das pessoas, os tipos do lugar, as conversas, as músicas, o jeito de andar, de se vestir, o clima do local.

E ainda que não seja o mote principal nos conteúdos explorados pelos meus versos, essa profusão de sentidos que a rua nos oferece está presente nos meus devaneios e nos poemas que derivam dessa perambulação. A rua é o palco do diverso, e essas vozes todas favorecem a minha criação que, penso, do contrário seria demasiadamente triste, tal como eu fico triste quando enquadrado em quatro paredes por muito tempo.

Eu até sou chegado a derramar meus versos pelas ruas, mas eu diria que, quando assim me defini, o que mais influenciou foi esse prazer de vivenciar a rua, o cotidiano da cidade nas suas veias mais sórdidas e artérias mais iluminadas! Enfim, as possibilidades e caminhos abertos pela endorfina das caminhadas, pelo contato ainda que apenas visual com as pessoas, pelas conversas, pelos encontros, pelas perspectivas que são abertas e que vem para arejar o pensamento e disparar a poesia.

 

_Seu novo livro tem o 22 no título. É só por conta dos 22 poemas da primeira parte?
É e é mais, né. Tem uma jogada aí, até bem escancarada, com o número 22 que está ligado a figura do louco, do maluco de carteirinha, uma figura que sempre esteve, em certa medida, vinculada a mim. Principalmente por conta da minha relação com as drogas e com os excessos de modo geral. Eu sempre fui um cara de excessos. Pra beber, pra fumar, pra comer, pra foder, pra porra toda. Menos pra trabalhar e estudar, nisso eu sou bem controlado…

 

UM LIVRO
É cliché, mas é foda! E em inglês, fica ainda mais bonito:

“the only people for me are the mad ones, the ones who are mad to live, mad to talk, mad to be saved, desirous of everything at the same time, the ones that never yawn or say a commonplace thing, but burn, burn, burn like fabulous yellow roman candles exploding like spiders across the stars and in the middle you see the blue centerlight pop and everybody goes ‘Awww!'”

On the Road
Jack Kerouac

Agora, por exemplo, quando entro numa de parar de beber tem que ser uma medida radical, nem um gole, sem essa de abrir uma exceção em uma ocasião especial. Porra nenhuma, é tipo lei seca mesmo, tem que ser assim. Até porque se eu der um gole, eu sei muito bem onde isso vai parar. Ou não vai parar, melhor dizendo…

E pensando bem, por outro lado, se você for ver mesmo, eu nem sou tão louco assim. Sem álcool, eu sou um cara totalmente tranquilo, equilibrado, organizado, na minha. O mundo é que é muito careta mesmo.

 

_A gente sabe que você já trabalhou em hospital psiquiátrico e hoje é pesquisador numa ONG que trabalha com Direitos Humanos. A poesia tem alguma relação com seu trabalho?
Do mesmo jeito que a rua influencia meus versos. Conhecer as pessoas, suas histórias de vida, outras perspectivas, a própria questão da loucura… Conhecer todo sofrimento que envolve a loucura quando é vivenciada dessa forma, sem romantismo. E mais, já com algum lirismo, perceber na loucura uma crítica encarnada do mundo me pôs em confronto com uma série de verdades estabelecidas. Ninguém sai ileso de determinadas experiências de vida. Nesse sentido é que a minha poesia pode ter alguma relação com meu trabalho, por via indireta, como reflexo quase inconsciente. De modo geral, eu odeio a intencionalidade militante na poesia. Logo, isso não vai aparecer nunca de uma forma direta, panfletária.

 

_O que acontece quando sai Rodrigo e entra Bodão?
Não lembro… O que aconteceu?
Eu? Sério?
Hum, puta que pariu, que merda, hein…
Hehehe

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PTSC #5 :: Paula Santos

A nova entrevistada da sessão PTSC é paulista, mas tem ritmo de carioca. Tranquila, ela exercita a paciência há algum tempo ilustrando os trabalhos da mórula. Paula já fez conosco capa de revista, capa de livro e outras coisas mais. Paulica, como ela costuma assinar seus trabalhos, além de responder as nossas perguntas triviais ainda fez a gentileza de desenhar sua citação. A entrevista ficou um charme. E para não perder o clima, quando terminar, corre no blog da Paula que tem muita coisa linda por lá.


Com vocês, Paula Santos, nosso ser complexo #5:

_É dura a vida de uma paulista no Rio?
Depende do tipo de paulista. Eu sou do interior de SP, então tenho algumas características diferentes de uma paulistana. Morei em São Paulo capital e gostei, mas lá já sentia que algo não se encaixava bem com meu ritmo. Embora custos como moradia e alimentação estejam muito altos no Rio, em São Paulo eu sentia que ficava mais refém de grana para me divertir. Aqui no Rio tenho mais opções de lazer que não envolvem gastar muito dinheiro, como ir à praia, cachoeira, andar na lagoa etc. Em relação ao trabalho, mesmo nos primeiros anos morando aqui, São Paulo continuou sendo mais presente para mim. Eu morava e tinha emprego fixo no Rio, mas a maioria dos meus freelas continuava vindo de São Paulo. Passados três anos, eu estou conseguindo ter uma abertura de mercado maior por aqui, mas foi uma construção.

_O que dizer para o cliente que pede uma ilustração e quando ela está pronta diz: “não era bem assim, muda essa cor, aumenta aqui, mexe acolá” – e no fim quer outra coisa?
Antes de chegar a esse ponto, acho que é preciso fazer o cliente entender que todo trabalho deve começar com uma boa conversa sobre o projeto e o que se espera dele, o famoso briefing. Isso foi uma coisa que aprendi com a prática. Fui percebendo que é importante investir o meu tempo nessa primeira etapa, pra correr menos risco de ter que voltar à estaca zero. Aprendi que, quanto mais completo o briefing, menor a chance de você chegar a um resultado que não agrade o cliente. Agora, às vezes acontece de o cliente mudar de ideia no meio do projeto. Se é assim, você tem que tentar fazê-lo entender que, em efeito cascata, o briefing também muda, e o orçamento também.

_O que você mais gosta de ilustrar?
Tive uma fase de fissura por desenhar passarinhos. Desenhava eles por prazer, sem necessidade de haver um projeto que os envolvesse como tema. Hoje meus temas favoritos são os relacionados à cultura, principalmente à cultura popular. A música, por exemplo, é um tema que me inspira muito, seja em ilustrações por trabalho, seja por lazer.

_E para quem você jamais faria uma ilustração? Por quê?
Procuro não restringir muito, afinal é o meu ganha pão. Mas tem algumas pessoas que nem por muito dinheiro eu conseguiria pegar no lápis. Políticos corruptos, por exemplo.

_Palavras dizem mais que imagens? Ou é o contrário?
Palavras podem ser mais precisas, mas as imagens ampliam os significados.

 

UM LIVRO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Memórias Inventadas: a infância
Manuel de Barros
Editora Planeta, 2003

 

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PTSC #4 :: Marcos Alvito

Marcos Alvito é antropólogo, mas dá aula na faculdade de história da Universidade Federal Fluminense. Nasceu em Botafogo, mas é rubro-negro. Gosta de samba e se diz pandeirista amador. Este é o novo entrevistado do PTSC, que acaba de lançar dois livros. Um sobre futebol e outro sobre samba.

O professor conversou conosco por e-mail e falou sobre esses dois temas que define como suas paixões. Falou também sobre megaeventos e subverteu a ordem. Os leitores deste blog já sabem que todo entrevistado indica um livro. Pois Alvito negou o pedido dos editores e indicou uma música. Pensamos em não aceitar, mas como era um samba, não tivemos como recusar.

Com vocês, Marcos Alvito em cinco perguntas triviais, ao som de Paulo Vanzolini.

_Você acaba de lançar dois livros. Um sobre samba e outro sobre futebol. Quando sairá o livro sobre cerveja?
Do jeito que os sambistas consomem o precioso líquido, acho que um livro já está contido no outro…

_Das histórias que você conta no livro sobre samba, qual a sua favorita?
Poxa, essa pergunta é maldosa, é como querer que eu goste mais de um filho do que de outro. Mas é claro que eu tenho um carinho especial pela primeira história que escrevi e que abre o livro. Eu conto como Noel Rosa, no leito de morte, pede a seu irmão que o vire de lado. Na nova posição, Noel começa a batucar na mesa de cabeceira, com muito ritmo, mas que vai decrescendo, decrescendo… Noel viveu e morreu fazendo samba. Mas a maioria das histórias é bem mais alegre.

_ Há quem diga que o Rio de Janeiro vive seu melhor momento, com investimentos e preparativos para os grandes eventos. Qual a sua opinião sobre isso?
Vocês me pediram para escrever pouco. Basicamente, trata-se de um projeto de transformação do Rio de Janeiro em cidade-mercadoria, não mais uma cidade para os seus habitantes, mas para os grandes projetos comerciais, em detrimento das nossas tradições. Acho que o “novo” Maracanã é o exemplo maior das barbaridades que estão sendo cometidas em nome do “progresso”. O preço dos imóveis, dos aluguéis e do custo de vida disparou. E sabemos muito bem quem lucra com isso: os políticos mauriçolas, as empreiteiras, os especuladores, os grandes proprietários.


UMA MÚSICA
“Um homem de moral
Não fica no chão
Nem quer que mulher
Lhe venha dar a mão
Reconhece a queda
E não desanima
Levanta, sacode a poeira
E dá a volta por cima”

Volta por cima
Paulo Vanzolini, gravado pela primeira vez por Noite Ilustrada, em disco de 1963

_Conte-nos uma partida de futebol inesquecível.
Aconteceu na Inglaterra, onde eu torcia para o Oxford United, então na 5a. divisão. O Oxford ia mal e a partida seria televisionada pela Setanta Sports, uma rede a cabo menor, uma espécie de 2a. divisão televisiva. Acontece que nos últimos 7 jogos que a Setanta havia transmitido, o Oxford havia perdido. O adversário desta vez era sem maior expressão, o Rushden & Diamonds. Mas o jogo era no campo deles. Logo o Oxford toma o primeiro gol. Nossa torcida, eu incluído, nem se abala e começa a gritar: We are going to win two, one. Ou seja, vamos vencer por 2×1. Em seguida, o 2º gol deles. Vamos vencer por 3×2 e assim quando eles fazem o 3º e o 4º gols, vamos vencer de 5×4. Mas quando eles fazem o 5º nossa torcida resolve inovar: We want six. Nós queremos seis, nós queremos seis. Em seguida, fizeram um trenzinho e começaram a cantar que estavam dançando a Conga. Feliz daquele que sabe sofrer, dizia Nelson Cavaquinho. Estas e outras histórias da minha temporada na Inglaterra eu conto no livro A Rainha de Chuteiras: um ano de futebol na Inglaterra (Clube de Autores, 2012).

_Com que zagueiro do Flamengo você faria dupla e qual intérprete de samba você acompanharia no pandeiro?
Gostaria de ter a glória de formar na zaga com Leandro, o zagueiro mais técnico que já vi jogar. Seria uma boa dupla, pois eu sou um zagueiro totalmente sem técnica. Seria uma suprema honra bater um pandeiro para sua alteza Paulinho da Viola cantar.

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PTSC #3 :: Talitha Ferraz

Ela é jornalista, pesquisadora, cinéfila, poeta e tijucana. Talitha Ferraz é tudo isso e algo mais: a mais nova autora da mórula editorial. Ela publica conosco a segunda edição do seu livro “A segunda cinelândia carioca”, que trata dos cinemas de rua na Tijuca.

O livro é resultado da pesquisa de mestrado de Talitha. Ela deu continuidade à vida acadêmica e hoje encontra-se em Lisboa, estudando. Foi de lá e, tomara, acompanhada de um bom vinho, que ela respondeu ao PTSC desta semana. Com vocês, a complexidade deleuziana de Talitha Ferraz em cinco perguntas e um livro:

_Você escreveu um livro sobre cinema de rua. Por quê? Você gosta de cinema de shopping?
Escrevi um livro sobre cinemas de rua porque gosto de cinema de rua, apesar de ir também a cinema de shopping (com menos frequência), e porque estudei/estudo o papel que as salas de exibição cinematográfica, como equipamentos coletivos, têm no arranjo das cidades, nas configurações urbanas e na vida das pessoas. Acredito que as cidades perdem um pouco de sua vitalidade quando os cinemas saem das calçadas – dando lugar a igrejas, farmácias, ou quando são demolidos – e o acesso ao audiovisual cinematográfico em salas comerciais fica restrito aos grandes centros de compra, nos quais o consumo é a razão primordial. Um cinema de rua, por mais que se curve aos ditames do capital (é indústria, é comércio, ok…), deixa derramar um pouco de magia em seu entorno via cartazes, via letreiros, via filas, via pipoqueiro, via gente que fica na porta só olhando, via foyer que serve de ponto de encontro entre pessoas que às vezes nem estão tão afim de ver filmes, mas usam o equipamento que está com portas voltadas para a rua.

_Você acha importante preservarmos cinemas de rua?
Justamente para que tenhamos opções, para que o acesso aos cinemas não fique à mercê da existência de um shopping center, para que alguns prédios pérolas das arquiteturas art-nouveau ou art-déco não desapareçam ou virem igrejas protestantes, para que a gente possa um dia estar andando na rua, como quem não quer nada, e num relance ser invadido pela força cinematográfica. E outra coisa: as ruas têm que ser ocupadas por equipamentos culturais… Falo de sala de cinema, mas seria bacana se, por exemplo, o pessoal cineclubista pudesse ter acesso à gestão de algumas salas de cinema abandonadas. Seria bacana se pudessem existir mais cinemas a preços “baixos”, distribuídos por toda a cidade (toda no sentido de toda mesmo, não de “toda a cidade” no sentido de Zona Sul), tal como algumas iniciativas público-privadas vêm concretizando, com reaberturas e inauguração de salas.



UM LIVRO

“Não há movimento artístico que não tenha suas cidades e seus impérios, mas também seus nômades, seus bandos e seus primitivos.”

Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia
Gilles Deleuze e Félix Guattari
Editora 34, 1997

_Seu livro não é só sobre cinema de rua. É cinema de rua na Tijuca. Diz aí o que a Tijuca tem de especial.
A Tijuca foi o bairro do Rio de Janeiro que mais teve cinema, em meados do século XX, depois do Centro (Cinelândia). Foi um dos primeiros lugares no Rio a receber salas de exibição, ainda no perfil cine-teatro, em 1907. Há dados que indicam, inclusive, que a Tijuca teve até mais cinemas de rua do que a Cinelândia por um certo período. Mas para saber, tem que ler a pesquisa… E a Tijuca é a Tijuca! Bairro cheio de particularidades históricas muito fortes na vida do Rio de Janeiro.

_Um filme inesquecível visto num cinema de rua. Conta a história desse dia.
Eu frequentei os cinemas de rua da Tijuca quando ainda era criança e no início da adolescência. Depois disso, todos fecharam e viraram outra coisa. Sendo assim, as minhas memórias guardam as impressões sobre filmes aos quais assisti na tenra infância. Os da Xuxa e os dos Trapalhões, esses vi todos nos cinemas de rua da Tijuca, na Praça Saens Peña e arredores. Lembro-me de uma sessão em que fui assistir ao “Super Xuxa Contra o Baixo Astral” (eu gostava da Xuxa, não se sabe muita coisa sobre a vida quando se é criança e não, não, não: criança não é um ser sábio). Nessa sessão, a minha prima Luana chorou muito com medo do Guilherme Karan, que fazia o Baixo Astral. Naquele dia, eu fiquei um pouco irritada com o
choro dela, mas hoje vejo que ela tinha total razão em chorar.

_A gente sabe que você está fora do Brasil. “Do leme ao pontal, há algo igual”?
Não há nada igual do Leme ao Pontal, graças a Deus! E é por isso que o Rio de Janeiro é magnífico e sempre será a minha casa. Volto logo! Não vejo a hora de ter uma sensação térmica de 50°, embalando a escrita de minha tese sobre as extintas salas de cinema da Zona da Leopoldina, subúrbio do Rio, que defendo em março de 2014.

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PTSC #2 :: Sérgio Vaz

Foto: Marcelo Min

Esta semana, na seção Perguntas Triviais para Seres Complexos (PTSC), o blog da mórula conversou com o poeta e fundador da Cooperifa Sérgio Vaz. Sua história se confunde com a da Cooperifa, que há 11 anos realiza semanalmente – sempre às quartas-feiras – o Sarau da Cooperifa no Bar do Zé Batidão, na periferia de São Paulo. Essa história está retrada no livro “Cooperifa – Antropofagia periférica”, um dos três livros publicados pelo autor. Os outros são de poesia: “Literatura, pão e poesia” e “Colecionador de Pedras”.

Na sequência, Sérgio Vaz em cinco perguntas e um livro:


UM LIVRO
“A Esméria parou na frente dele e me chamou, disse para eu fechar os olhos e imaginar como eu era, com o que me parecia (…) Eu sabia que tinha a pele escura e o cabelo duro e escuro, mas me imaginava parecida com a sinhazinha. (…) Era muito diferente do que imaginava, e durante alguns dias me achei feia, como a sinhá sempre dizia que todos os pretos eram e evitei chegar perto da sinhazinha.”Um defeito de cor
Ana Maria Gonçalves
Editora Record, 2009

_O que você acha do título de ‘poeta da periferia’?
Não sei se mereço, mas agradeço. Esse título tem hora que ajuda, tem hora que atrapalha. Mas quem pode controlar a língua das ruas, né?

_Quem é esse ‘povo lindo e inteligente’ que você dialoga?
O povo da periferia, da favela, essa gente que adora um Deus chamado trabalho.

_O mundo precisa de mais poesia?
Mas é claro! Esse mundo precisa de governantes poetas (Sarney não vale).

_”Isso de ser exatamente o que se é ainda vai nos levar além”?
Sim, sonhar com as mão. Acredito nisso.

_Suas pedras têm quebrado muitas vidraças?
Muitas, inclusive a minha (risos).

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PTSC #01 :: Renato Cafuzo

Foto: Luke Garcia
Foto: Luke Garcia

Não, raro leitor, a mórula não está lançando seu partido político. Este é o primeiro post de uma nova sessão do blog: Perguntas Triviais para Seres Complexos – PTSC.

É entrevista, mas não é só entrevista. É também literatura e ironia, quinzenalmente, com um novo ser complexo.

Quem inaugura a sessão é Renato Cafuzo, ilustrador, designer, índio, caboclo, criolo, como diz a música. É só olhar a foto para ver que não estamos exagerando.

Renato é ilustrador oficioso da mórula em diversos trabalhos. Já fez conosco a revista Democracia Viva e alguns livros. É também parceiro na criação dos marcadores literários.O primeiro deles já saiu com desenho do Cafuzo e texto do barbudo do Cosme Velho.

Sem maiores delongas, Cafuzo em 5 perguntas e um livro:

UM LIVRO
“O conceito de jogo enquanto tal é de ordem mais elevada do que o de seriedade. Porque a seriedade procura excluir o jogo, ao passo que o jogo pode muito bem incluir a seriedade.”

Homo Ludens
Johan Huizinga
Editora Pespectiva, 2000

_Você é ilustrador e designer. Como se deu isso? Você estudou? Vive disso hoje?
Desenho desde criança e nunca “funcionei” direito pra coisas que não gostava, cresci ouvindo que desenhar não dava dinheiro a não ser que eu fosse arquiteto e dessa ideia eu não gostava. Quando vi a oportunidade de fazer design gráfico fiquei empolgado porque achava que era o mais próximo do que eu gostava de fazer.

Estudei design gráfico no Senai e trabalhava pra pagar o curso, dei a sorte de já começar estagiando na área, então era estudo teórico de um lado e prática de outro. Os estudos em design também serviram pra evoluir na ilustração e, mais tarde, fiz (e ainda faço) alguns cursos livres mais específicos.

Hoje trabalho com os dois, mas o que me sustenta mesmo é o design, isso me permite ser mais livre nas escolhas que faço sobre ilustração.

_Você mora na Maré. Há quem ache a Maré um lugar “perigoso”. Você acha?
Não mais que o restante do Rio. Um professor meu sempre fala sobre a diferença do perigo e a sensação de perigo. Essa segunda se dá por outros fatores que não envolvem a segurança em si, mídia, falas de quem nunca botou o pé aqui, até o contexto histórico de como a favela é vista até por ela mesma. Mas acho que ainda tem muita coisa pra acontecer aqui e isso deve mudar de alguma forma.

_O que responder para o cliente que não quer pagar e manda o clássico: “vai ser uma boa divulgação para o seu trabalho”?
De qualquer forma meu trabalho vai ser divulgado, ele é feito pra isso, ilustrar uma veiculação. Então isso não serve de contrapartida pra um não-pagamento. Existem milhões de outros motivos que me fariam até gastar dinheiro pra concluir um desenho, mas não esse.

_Para quem você jamais faria uma ilustração? Por quê?
Pra muita gente, mas não tenho interesse nenhum em fazer pra campanhas políticas. Acho que o (meu) desenho, apesar de buscar a figura humana, tem uma carga muito lúdica e isso fala de emoções, afeta pessoas.

Não consigo confiar num partido a ponto de servir de voz pra isso e pensar que o meu trabalho, que é simbólico, moveu alguém a acreditar em algo tão sério e que eu não tenho certeza se é verdade.

_É melhor um passarinho na mão ou dois voando?
Gosto de passarinhos, se eles também gostarem de mim, virão cantar na minha janela.

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A comunicação do oprimido em resenha da Poli

A revista Poli, publicação da Escola Politécnica da Fiocruz, publicou em sua primeira edição de 2015 uma resenha do livro “A Comunicação do oprimido e outros ensaios”. A resenha é de Erick Dau, jornalista e aluno do programa de pós-graduação0 em comunicação e cultura da UFRJ. Leia o texto na íntegra ou na própria revista através do link: bit.ly/16a14bi

***

Não passa ainda de sua pré-adolescência o século 21, e já é assaz eloquente a respeito de seu futuro. A se julgar pela infância, cheia de profundas crises e graves traumas, sua idade adulta não será provavelmente um mar de tranquilidade como seus ancestrais repetidamente previram e – cinicamente – desejaram. Para uma breve ideia, faça-se lembrar que sua primeira guerra, a invasão norte-americana ao Afeganistão, ainda hoje não está terminada.

As múltiplas faces da história, contudo, demandam um olhar mais otimista para esse despertar de século. As rebeliões do mundo árabe, o despertar da juventude europeia e aqui, no Brasil, a tomada das ruas no movimento de junho – todos estes episódios trazem consigo importantes lições. Sem dúvida, uma das mais fundamentais e importantes tem a ver com o proeminente papel da comunicação nos processos subversivos do capitalismo mundializado.

A Comunicação do Oprimido, novo livro de Eduardo Granja Coutinho, vem contribuir para corrigir o descompasso político e temporal entre os movimentos sociais organizados no Brasil e o papel crucial da comunicação em suas lutas. Reunindo 11 artigos atravessados pela questão da via pacífica de nossa formação social e amplamente referenciados pela obra de Antonio Gramsci, o livro discute a comunicação no
Brasil de maneira ampla.

Deste modo, analisa por exemplo a fala de Bezerra da Silva como forma de contestação da hegemonia pela música; traz a crítica literária de Carlos Nelson Coutinho para traçar o panorama cultural literário nacional; evoca o pensamento de Muniz Sodré no reconhecimento da cultura negra – em especial do samba – na fundação de uma cultura brasileira.

É claro que um trabalho como este não poderia deixar de falar da Rede Globo – fato raríssimo entre os intelectuais da comunicação no Brasil, mesmo os de esquerda. Em ensaio dedicado ao tema, Coutinho traça precisamente as relações entre a TV Globo e a ditadura militar no país.

O conjunto do livro está, de fato, baseado em uma análise histórica da formação cultural brasileira – no campo da televisão, da linguagem, da música, da literatura, da imprensa – aliada às características fundamentais
dos processos de desenvolvimento do país. Por isso, o livro tem o grande mérito de trazer para o lado esquerdo deste terreno – o da luta de classes – uma certeza que há muito já é conhecida pelos donos do
poder: a comunicação é fator fundamental para a vitória de qualquer projeto político – condição que se aprofunda conforme avançam as técnicas e os meios de produção específicos da área comunicacional e, com eles, o controle social dos discursos.

“Em última análise, todo processo de hegemonia é, necessariamente, um processo de comunicação. […] Pela comunicação, formam-se e transformam-se as ideologias que agem ética e politicamente na transformação da história.”, diz o autor, num postulado que se mostra especialmente correto para este século pré-adolescente.

Não há, entre os ensaios, grandes promessas ou fórmulas para a salvação da humanidade. Ao contrário, o problema da comunicação como meio de dominação e hegemonia é tratado com pinça e lentes de aumento, nos seus mínimos detalhes. Nesta minúcia, inspirada pela ciência marxista, Coutinho deixa transparecer, ao lado da oportunidade e da responsabilidade dos movimentos sociais de se apropriarem da comunicação, todas as dificuldades e as idiossincrasias que tamanha tarefa encarna.

Se os ensaios mostram que, por um lado, a comunicação serviu à criação do consenso entre as classes subalternas no país, por outro, ela também foi e deve ser o meio de propagação da luta contra-hegemônica

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