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Mórula

Cosme e Damião

Dia 27 é dia de São Cosme e Damião e nós celebramos com um texto de Luiz Antonio Simas, em homenagem aos santinhos. O texto foi publicado no livro “Pedrinhas Miudinhas: ensaios sobre ruas, aldeias e terreiros”.

 

São Cosme e São Damião

Sou devoto amoroso do Brasil e dos seus encantamentos. Nesse ponto, e dou o braço a torcer, quem está certo é o velho compositor baiano: “quem é ateu e viu milagres como eu”… E nossos milagres, camará, são muitos, temperados por tambores e procissões; pela Virgem no andor, o caboclo na macaia e o preto velho no gongá. Somos, os brasileiros, filhos do mais improvável dos casamentos, entre o meu compadre Exu e a Senhora Aparecida – a prova maior de que o amor funciona. E Tupã, que se vestiu com o cocar mais bonito para a ocasião, celebrou a cerimônia entre a cachaça e a água benta.

Uma das nossas mãos está calejada pelo contato com a corda santa do Círio de Nazaré – a outra tem os calos gerados pelo couro do atabaque que evoca as entidades. As mãos do Brasil e do seu povo. Nossos ancestrais passeiam pela vastidão da praia sagrada dos índios de Morená, retornam à Aruanda nas noites de lua cheia, silenciam no Orum misterioso das almas e florescem encantados nas folhas da Jurema. Os guerreiros de nossas tropas trazem a bandeira do Humaitá, o escudo de Ogum e o estandarte da pomba branca do Divino Espírito Santo – a mesma pomba que pousou na ponta do opaxorô de Obatalá. São essas as nossas divisas de guerra e paz; exércitos do Brasil.

E digo isso porque chegou o dia de Cosme e Damião. Dia brasileiro dos santos estrangeiros e orixás africanos. Dia de igreja aberta, missa campal, terreiro batendo, criança buscando doce, amigos bebendo saudades e aconchegos. Dia de comer caruru na rua. A tradição brasileira de Cosme e Damião é a mais festiva do mundo. O bom, nessas horas que antecedem as folganças dos santos gêmeos, é vadiar no clima da folia, tomando pinga e ouvindo umas cantigas bonitas sobre os protetores dos meninos. É hora de bater samba de roda pra Dois-Dois, na palma da mão e no ponteio da tirana.

Aqui em casa toquei a alvorada lembrando as cantigas mais bonitas que conheço em homenagem aos gêmeos. É de comover pedra! Quando ouço as louvações pros santinhos, tenho forte desconfiança de que ainda morro um dia de tanta belezura do Brasil – um amor que não se explica, feito cachaça da boa, jabuticaba, sorvete de cupuaçu, beira de rio, gol do meu time, cerveja gelada, mulher amada, amigos do peito e caruru de Cosme. E que no dia de cantar pra subir, um samba de roda desses me carregue ao encontro dos meus pela Noite Grande.

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Mórula na FLIP 2017

Confira nossa agenda na Festa Literária Internacional de Paraty:

_Quinta, 27/07, às 15h: Alberto Mussa, Felipe Botelho Corrêa e Luiz Antonio Simas, convidados da Flip 2017, vão reviver os tempos em que Lima Barreto se sentava no Café Papagaio. A mediação da conversa é de Mariana Filgueiras e o papo acontece no Café Paraty, rua do Comércio, 253.

_Sexta, 28/07, às 15h: dia de ouvir Luiz Antonio Simas e Beatriz Resende revisitando os lugares do Rio de Janeiro por onde Lima Barreto passou, através de personagens de seus romances e contos. “Subúrbios”, no Auditório da Matriz.

_Sábado, 29/07, às 18h: Marcelo Moutinho, Henrique Rodrigues e Fernando Molica batem um papo e lançam “Conversas de Botequim” no Encontros Malê em Paraty. Na Rua do Fogo, 04 – Centro Histórico.

Também no sábado, o livreiro Rodrigo Ferrari fará da Rua da Matriz uma filial da Rua do Ouvidor. A partir das 18h, a versão itinerante da Folha Seca oferecerá ao público uma seleção cuidadosa de obras relacionadas à cultura carioca. Os autores que sempre estão pela Folha Seca, fazendo dela a livraria mais charmosa do Rio de Janeiro, também estarão por lá. E às 21h o samba come solto!

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O Papão da Curuzu

* texto de Luiz Antonio Simas, que integra o livro “Ode a Mauro Shampoo e outras histórias da várzea“, disponível para pré-venda até o dia 30/06. Aqueles que comprarem o livro até a data, levarão um exemplar autografado pelo autor e concorrerão a uma camisa do Paysandu de 65, cuja vitória sobre o Peñarol é narrada abaixo.


 

O "Papão da Curuzu", Paysandu
O “Papão da Curuzu”, Paysandu

Somos, os brasileiros, pentacampeões mundiais de futebol. Perguntaram-me, certa feita, qual foi a maior das vitórias do futebol tupiniquim. A final contra a Suécia, em 1958? O saco que metemos na Itália, em 1970?

Matutei sobre os feitos do escrete, descartei as finais de 1962, 1994 (essa foi menos emocionante que a Missa do Galo daquele ano) e 2002, cogitei citar o baile que demos na Espanha na fase final da Copa de 1950, mas, na hora de responder, falei de forma automática, feito caboclo de umbanda:

— A maior vitória da história do futebol brasileiro não foi obtida pela seleção. Foi o vareio que o Paysandu de Belém deu no Peñarol do Uruguai em 18 de julho de 1965: 3 a 0 pro Papão no Estádio da Curuzu.

É verdade. Foi mesmo um feito digno de figurar nos anais da história. O Peñarol à época era uma máquina. O time titular era praticamente a seleção do Uruguai: Mazurkiewsk, Forlan, Abbadie, Pedro Rocha e Caetano, por exemplo, envergavam a camisa preta e amarela do time platino. Eram, os gringos, bicampeões da Libertadores da América, bicampeões uruguaios e campeões mundiais interclubes.

Pois o Paysandu deu um vareio nos homens. Com o ex-tricolor Castilho fechando o arco e um ataque encapetado — Vila, Milton Dias, Pau Preto e Ércio —, o Papão não tomou conhecimento da rapaziada do churrasco, jogou pra dedéu e liquidou a fatura de forma inapelável (Ércio, Milton Dias e Pau Preto fizeram os gols).

Ouso dizer que, em se tratando de confrontos na América Latina, o que o Paysandu fez com o Peñarol reduz a Batalha Naval do Riachuelo a um evento tão dramático quanto um passeio de elevador em um prédio de cinco andares.

O triunfo do Paysandu virou Belém de cabeça pra baixo. Houve carreata, ponto facultativo, desmaios, infartos, pororoca no Rio Guamá, pato no tucupi e o escambau. O Liberal, o maior jornal do Pará, estampou na manchete: “Triunfo do Papão é a vitória do Brasil”. Estava vingado o maracanazzo de 1950.

Daqui do Rio, basbaque com o triunfo, Nelson Rodrigues — garantindo que assistira ao jogo pelos rumores do vento — não deixava por menos em sua crônica no jornal “O Globo”: “O Paysandu tem camisa. Sendo preciso, sua camisa deixa de ser um trapo qualquer para erguer-se como um estandarte em chama […]. O Peñarol saiu de lá com as orelhas a meio pau. Três a zero! Um banho completo!”.

Uma grande história desse jogaço aconteceu nas arquibancadas. Um dos torcedores presentes ao embate, o fuzileiro naval Francisco Pires Cavalcanti, teve um treco durante a partida. Pires era músico da marinha e compositor, mas não conseguia compor nadica de nada há uns vinte e tantos anos. As musas do poeta estavam de férias.

Entusiasmado com o desempenho do seu Paysandu, o fuzileiro Pires teve uma inspiração súbita, uma espécie de estalo de Vieira. Num estado de transe que só o futebol proporciona, começou ali mesmo, nas arquibancadas, a compor uma marchinha em homenagem ao Papão e ao chocolate paraense nos uruguaios.

Encerrado o jogo, um eufórico Pires cantava que nem doido para não esquecer a melodia que acabara de fazer: “Uma listra branca, outra listra azul, essas são as cores do Papão da Curuzu”. O fuzileiro acabara de compor a ciranda, cirandinha do futebol do Pará.

Além, portanto, da vitória acachapante contra os gringos, aquela tarde de sol em Belém viu nascer um dos hinos mais simpáticos dos clubes de futebol do Brasil. Para muitos, inclusive, a marchinha de Pires é o hino oficial do Papão. Não é, mas é como se fosse.

Vou ser sincero: o hino oficial do Paysandu não me comove. Parece uma ladainha de igreja. Já a marchinha do fuzileiro Pires é boa pra burro. Cita o baile no Peñarol e ainda sacaneia o maior adversário, o Clube do Remo, ao se referir a uma biaba que o Papão deu no rival (um acachapante 7 a 0) no verso “Pintou o sete numa tela azul”. É isso, camaradas. Viva o glorioso Paysandu e viva o fuzileiro Pires, caboclo amazônico encantado nas arquibancadas da Curuzu toda vez que a torcida do Papão entoa sua marchinha arretada.

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Sonhos, derrotas e conquistas da várzea

O jogador Mauro Shampoo
O jogador Mauro Shampoo, um dos homenageados no livro

As 32 crônicas de “Ode a Mauro Shampoo e outras histórias da várzea” são uma forma de resistência encontrada pelo autor, o historiador Luiz Antonio Simas, ao futebol moderno, tratado como negócio e espetáculo. Nos textos, que valorizam os chamados “times pequenos”, as derrotas são tão valorizadas quanto as conquistas, e a várzea é considerada qualquer terreno onde o futebol inventa a vida.

Crítico aos termos “jogador diferenciado”, “peça de reposição”, “assistência”, “arena multiuso” e “espectador”, Simas faz um paralelo entre as culturas do futebol com as do botequins atuais: “O processo de falência do futebol e do botequim como cultura reduz o jogo e a ida ao bar aos patamares de meros eventos; para delírio das caravanas que parecem percorrer os bares com a curiosidade dos antigos imperialistas em incursões civilizadoras e dos espectadores que ficam fazendo selfies em estádios de futebol enquanto a bola rola. Me espanta, ainda, como isso se reflete no vocabulário, que perde as características peculiares do torcedor e do bebum (o correto agora é chamar de “butequeiro”) e se adequa ao padrão aparentemente neutro do jargão empresarial”.

O jornalista Thales Machado, que escreveu a orelha do livro, descreve Simas como “um sujeito encostado no balcão, de chinelo de dedo, camisa do São Cristóvão, para nos dizer e nos lembrar que vale também a história do Leônidas da Selva e não só a do (grande) Leônidas da Silva”.

O que interessa ao historiador a respeito do futebol brasileiro é a capacidade que o povo daqui teve de se apropriar do jogo europeu e lidar com ele não como simulacro, mas como reinvenção. Segundo Simas, “este talvez seja o traço distintivo mais importante de certo modo de ser brasileiro: a capacidade crioula de apropriação de complexos culturais estranhos e o poder de redefini-los como elementos originais”.

 

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Santo Antônio: Ogum, Xangô, Exu e secretário de segurança

No dia de Santo Antônio, resgatamos um texto de Luiz Antonio Simas presente no livro Pedrinhas Miudinhas.


Sei de muita gente que anda preocupada com os eventos previstos para a cidade do Rio de Janeiro nos próximos anos. Há quem diga que a cidade não suportará o crescimento do Carnaval, o furdunço da Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Minha opinião, nesse sentido, é muito clara: a população da cidade do Rio de Janeiro tem a tradição de enfrentar com galhardia as maiores confusões e transformar em festa (para o bem e para o mal) as situações mais desfavoráveis. Os riscos maiores se encontram, podem apostar, nas ações e negligências do poder público. Recorro à História para exemplificar.

Em 1710, pouco depois da notícia de que o ouro tinha sido encontrado em Minas Gerais, o rei francês Luís XIV resolveu enviar ao Brasil novecentos e tantos piratas, sob comando do capitão de fragata Jean-François Duclerc, para pilhar a cidade do Rio de Janeiro.

Os flibusteiros enviados pelo Rei Sol, temendo a barra estreita e as fortalezas da Baía da Guanabara, desembarcaram em Guaratiba, atravessaram os sertões de Jacarepaguá e as matas da Tijuca e rumaram em direção à cidade sem maiores problemas. Nesse momento entrou em cena o governador do Rio na ocasião, o português Castro Morais – apelidado pela população, que tinha o saudável hábito de não simpatizar com governantes, de ‘O Vaca’. Retifico a frase: Castro Morais, na verdade, saiu de cena.

Ao receber a notícia de que os homens de Duclerc estavam chegando ao Centro da cidade, Castro Morais tomou a mais inusitada decisão administrativa da história carioca em todos os tempos. Teve um ataque de covardia, se trancou no palácio governamental (no prédio onde hoje fica o Centro Cultural Banco do Brasil) e, de lá mesmo, mandou anunciar que estava passando, em ato administrativo, o comando das tropas ao novo chefe da segurança pública da cidade: Santo Antônio.

É isso mesmo. Santo Antônio, o casamenteiro, morto em 1231, foi oficialmente nomeado comandante das forças de segurança do Rio de Janeiro em 1710. Há quem afirme que uma pequena estátua do santo foi oficialmente empossada no cargo, em rápida cerimônia administrativa.

O pepino sobrou, evidentemente, para a população. As notícias deque o governador estava trancado no palácio sob cuidados médicos, tendo ataques nervosos, e de que Santo Antônio era o novo responsável pela defesa da cidade, levaram o povo do Rio a se virar. E nisso, admitamos, o carioca é especialista.

Os franceses – desgastados pela estratégia maluca de atravessar Jacarepaguá e a Tijuca a pé – foram emboscados no largo da Lapa e atacados das janelas com armas de fogo, óleo fervente, pedras, pedaços de pau, hortifrutigranjeiros e toda a sorte de quinquilharias domésticas. Milícias populares se organizaram com impressionante rapidez. O cacete estancou nas vielas do Centro, com especial destaque para combates corpo a corpo envolvendo escravos, índios, mulheres, crianças, bebuns, padres e devotos. Os estudantes do colégio dos jesuítas deram uma banana para as aulas, formaram uma inusitada artilharia de batinas e, desta forma, mandaram bala nos franceses e evitaram a invasão do palácio do governador.

Depois do furdunço todo, o saldo da quizumba era o seguinte: trezentos e tantos franceses mortos, quatrocentos e poucos presos – dentre eles o próprio Duclerc, que acabou misteriosamente assassinado em sua prisão domiciliar – e outros tantos feridos. O governador, saído do estado de letargia, permitiu que a semana seguinte à vitória fosse dedicada aos festejos populares – como se a população precisasse de alguma autorização do Vaca para celebrar a vida.

A ironia é irresistível. Que me desculpem os fãs da política de segurança dos governos. Os fatos históricos indicam, sem a menor margem de dúvidas, que o maior secretário de segurança pública da história do Rio de Janeiro foi mesmo Santo Antônio. Estou com ele e não abro. Revelam, ainda, a enorme capacidade da população do Rio para dar nó em pingo d’água e se organizar na mais absoluta desordem.

O risco maior é mesmo a síndrome de Castro Morais. Vez por outra o espírito do Vaca gruda no cangote dos nossos governantes e o poder público não cumpre a sua parte, não faz o que deve ser feito e ainda corre o risco de se meter onde não devia. De festa a gente entende; administrar o babado é que são elas. A vocação do Rio, salvação e danação da nossa gente, é, afinal de contas, amanhecer cantando.

Quanto a Santo Antônio, resta dizer que este é craque. Sincretizado com Ogum nos candomblés da Bahia, com Xangô, em alguns candomblés do Recife, e até com Exu, em vários terreiros cariocas, mereceu inclusive ser homenageado com uma curimba das mais populares em nossas macumbas, que o vincula ao povo da rua:

Santo Antônio de batalha
Faz de mim batalhador
Corre gira, pombagira,
Tiriri e Marabô.

 

 

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Pré-venda de “Ode a Mauro Shampoo e outras histórias da várzea”

19437413_1532471166824871_5822385459914468664_n Tem pré-venda na área! Comprando o novo livro de Luiz Antonio Simas, “Ode a Mauro Shampoo e outras histórias da várzea“, até às 16h do dia 30/06, você leva para a casa um exemplar autografado e ainda concorre a uma camisa do Paysandu de 1965. Os livros serão enviados a partir do dia 03/07 e o frete é grátis para todo o Brasil.

As 32 crônicas do livro são uma forma de resistência ao futebol moderno, tratado como negócio e espetáculo. Nos textos, que valorizam os chamados “times pequenos”, as derrotas são tão valorizadas quanto as conquistas, e a várzea é considerada qualquer terreno onde o futebol inventa a vida. Saiba mais.

O lançamento da publicação será no dia 01/07 às 14h, na Livraria Folha Seca, na Rua do Ouvidor. Confirme sua presença em nosso evento no Facebook e convide seus amigos.

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Caboclo da Vila

Com a proximidade dos 80 anos da morte de Noel Rosa, a Mórula homenageia o sambista com o lançamento de “Conversas de Botequim“, reunião de 20 contos inspirados nos títulos de suas canções, escritos por 20 autores de diversas partes do Brasil. O texto abaixo, sobre o compositor, é de autoria de Luiz Antônio Simas e integra o livro “Pedrinhas Miudinhas“.


Noel Rosa é um dos inventores do Brasil, gênio da raça. Deveria ser ensinado nas escolas, cantado nas universidades, bebido nos botequins, saudado nas esquinas e reverenciado nos terreiros.

Noel Rosa é Exu e Oxalá ao mesmo tempo – homem da rua, dono do corpo, malandro maneiro, azougue de céu e terra, civilizador afoito e velho sábio. Feito Obatalá bebeu o vinho de palma, dormiu na sombra da palmeira, largou a medicina como se larga a tarefa de Olodumare, zombou da sorte, não criou o mundo mas moldou no verso – ritmado em samba – o homem.

Noel Rosa é tapa na cara do preconceito e prova evidente de que o maior elemento civilizador do Brasil é o samba. Não pensou em remover favela – subiu o morro, aprendeu, ensinou, bateu, levou e inventou a vida entre o pandeiro e a viola. Branco azedo entre os pretos, feito camisa do Botafogo.

Noel Rosa é conversa de botequim, futebol no rádio de pilha, conta pendurada, caldo verde pra curar ressaca, conversa fiada, sacanagem no portão, punheta de garoto, pêra uva maçã salada mista, selo carniça nova, pipa no céu, bola ou búlica, vida pela sete, com tabela na caçapa do meio. Brasil que gosta do Brasil.

Noel Rosa é festa da Penha, novena, quermesse, tambor de mina, sessão de mesa, doce de Cosme, baile nos infernos, flor e navalha, afago e pernada, gol de letra e gol de mão, pomba da paz e galo de rinha, Estácio, Tijuca, Vila – o Brasil que sabe, e Morengueira confirma, que em casa de malandro o vagabundo não pede emprego.

Noel Rosa viveu no tempo em que do morro da Mangueira se enxergava a Vila Isabel. Hoje, entre o Buraco Quente e o Boulevard, existe o prédio da Universidade do Estado do Rio de Janeiro pra esculhambar a vista – e não se ensina o poeta, e não se canta o poeta na universidade: Pior pra ela.

Noel Rosa nunca morreu; encantou-se em Vila Isabel aos vinte e seis anos, feito Mestre da Jurema, Zé Pilintra, caboclo de pena, boiadeiro de laço, erê de cachoeira, bugre do mato, malandro da encruza e exu catiço.

Noel Rosa é da família dos encantados que moram nas esquinas, campos de várzea e botecos vagabundos, e baixam quando a noite é grande e a cachaça é farta: Mané Garrincha, Aleijadinho, Bispo do Rosário, João da Baiana, Cartola, Mãe Senhora, Geraldo Assoviador, Villa Lobos, Bimba, Pastinha, Camafeu de Oxóssi e Lima Barreto são da mesma guma de ajuremados – os caboclos nossos, brasileiros.

Noel Rosa é.

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Lançamento de ‘Vozes a favor do golpe!’

Como o discurso anticomunista foi reverberado no Brasil no pré-golpe de 1964 é o que o novo livro de Pâmella Passos procura demonstrar. A partir da análise de materiais produzidos pelo Instituto de Pesquisa de Estudos Sociais (o Ipês), a autora mostra como essa propaganda colaborou para a produção e reprodução de um imaginário anticomunista no país, capaz de ser um dos pilares de sustentação do golpe civil-militar de 1964.

Vozes a favor do golpe! O discurso anticomunista do Ipês como materialidade de um projeto de classe está disponível para download gratuito no site da Mórula.  O livro é resultado da pesquisa de mestrado realizada pela autora no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) entre os anos de 2006 e 2008. O período pesquisado vai da fundação do Instituto, em 1961, até o golpe de 1964, momento em que houve no Brasil um acirramento das polarizações ideológicas. Como escreve a autora, “nesse enquadramento temporal, pretendemos investigar as relações de poder relativas ao tema, buscando discutir as crenças e as representações expressas no material de propaganda produzido pelo Ipês, como parte da luta ideológica que então era travada”.

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Capa do livro disponível para download gratuito

BAIXE O LIVRO GRATUITAMENTE

Adriana Facina aponta que a pesquisa nos dá mostra da competência da elite brasileira em forjar um projeto de dominação. “A preparação do golpe de 1964 precisou da propagação do medo e de uma propaganda que associava o governo João Goulart à corrupção (inclusive moral) e à ameaça comunista. No discurso foi construída a materialidade que as armas sacramentaram. Igreja Católica, mídia hegemônica, empresários, latifundiários, intelectuais organizaram o caminho por onde os tanques triunfaram”, escreve no prefácio da obra.

A professora Lená Medeiros de Menezes, que orientou a pesquisa e assina a apresentação, relata que a obra trata dos caminhos seguidos pelo país no contexto da Guerra Fria, “no qual os comunistas tornaram-se inimigos  declarados e o ‘perigo comunista’ motivação para vigilância, controle e repressão sobre muitos brasileiros”. A importância deste livro, para ela, está principalmente porque “permite uma melhor compreensão de um tempo de conturbações, no qual o deslocamento da Guerra Fria para a América Latina (…) fez ressurgir um agressivo discurso anticomunista e contrarrevolucionário”.

_Sobre a autora

Pâmella Passos é professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ), doutora em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e mestre em História Política pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), onde também concluiu a graduação em História. Foi uma das organizadoras do livro Política Cultural com as periferias: práticas e indagações de uma problemática contemporânea (2013).

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Leia mulheres

Perguntamos à enorme equipe que trabalha na mórula (4 pessoas) as autoras lidas nos últimos dois anos. A partir disso fizemos uma lista com as recomendações. Não são os melhores livros, nem os mais importantes ou representativos. Esta é apenas uma lista de 10 livros que 4 pessoas bem diferentes, mas que adoram literatura, leram nos últimos meses e gostaram.

Nossa ideia aqui é ser diverso. Porque há livros de mulheres sobre tudo. Mulheres escrevem poemas, biografias, ensaios, romances, não-ficção, contos, livros-reportagem, quadrinhos…  Mulheres escrevem best-sellers e independentes. O que as mulheres não conseguem é publicar em pé de igualdade com os homens.

Se 72% dos livros publicados no Brasil são de homens brancos, imaginamos que hoje, dia 8 de março, um bom presente é se perguntar: “quantos livros escritos por mulheres você leu no último ano”? Aproveita o dia para tirar uma autora da estante!

#NãoDêFlores #LeiaMulheres

 

Tudo ou nada, de Malu Gaspar (Record)

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Flores azuis, de Carol Saavedra (Companhia das Letras)

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Histórias de leves enganos e parecenças, de Conceição Evaristo (Malê)

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O vento que arrasa, de Selva Amada (Cosac Naify)

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A guerra não tem rosto de mulher, de Svetlana Aleksiévitch (Companhia das Letras)

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Uma autobiografia, de RIta Lee (Globo)

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A amiga genial, de Elena Ferrante (Biblioteca Azul)

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Poemas, de Wislawa Szymborska (Companhia das Letras)

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Entre umas e outras, Julia Wertz (Nemo)

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Só as mulheres sangram, de Lia Viera (Nandyala)

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Camisas O Meu Lugar

A camisa "O meu lugar"
A camisa “O meu lugar”

A marca de camisas Poeme-se realizou um desejo de muitos leitores da antologia “O meu lugar” e a capa do livro virou estampa.

A Poeme-se é conhecida por trabalhar com produtos literários de alta qualidade e que prezam pela diversidade. “A Poeme-se, empresa-verso que nasceu no subúrbio do Rio, tem uma ligação grande com o território e valoriza muito a dimensão simbólica e afetiva desenvolvidas nesses espaços. Exatamente por isso faz sentido uma parceria tão especial como essa”, conta Gledson Vinícius, fundador da marca, sobre a parceria com a mórula.

Gledson e Leionardo, os proprietários da Poeme-se
Gledson e Leonardo, os proprietários da Poeme-se

O Lançamento da coleção

Para o lançamento da coleção, além da camisa com a capa do livro, é possível adquirir camisetas de seis bairros presentes na antologia: Madureira, Realengo, Copacabana, Lapa, Vila Isabel e Tijuca.

A Poeme-se ainda lançou uma promoção, basta fotografar o lugar que você considera como seu e especial e marcar a hashtag #OMeuLugar para concorrer ao sorteio de algumas camisas. Mais informação aqui.

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PTSC #24

Foto: Rodrigo Macedo
Foto: Rodrigo Macedo

Sr. ou Sra. Leonor? Como? Leonora? É Leonor e é senhora, mas nem tão senhora, embora tenha um filho de 15 anos. É que foi mãe cedo, aos 19 anos. E além do Lucas – seu filho – essa gestação gerou mais um rebento, o livro ENEOTIL: mãe é pra quem a gente pode contar tudo, mas não conta nada. Com muito humor e afeto, ela conta que ser mãe é uma briga constante entre emoção e razão, a vontade egoísta de não deixá-lo ir e a lembrança da vida que você queria ter quando tinha a idade dele.

Namorando a Mórula há um tempinho, lança o livro agora em março pela editora. Tem ainda uma promoção pra quem não puder ir ao lançamento: comprando o livro pelo site da editora até dia 1º de março recebe o livro autografado em casa com frete grátis.

Com vocês, Leonor Macedo, a @subversiva, corintiana, mãe do Lucas e jornalista, nosso ser complexo #24

_O subtítulo do seu livro é “mãe é pra quem a gente pode contar tudo mas não conta nada”. Se soubesse mais da vida do Lucas você lançaria o quê, uma enciclopédia?

Acho que toda mãe poderia lançar uma enciclopédia do próprio filho, se a gente resolvesse abrir a boca (também sou filha que não partilha tudo com a própria mãe)!

Eu-Receberia-as-Piores-Noticias-dos-Seus-Lindos-Labios

UM LIVRO

“Poucas vezes me senti tão confortável no mundo. E, no entanto, sofria, por antecipação, o grande vazio que seria o resta da minha existência sem ela.

O que acontece é que, quando estou com você, eu me perdoo por todas as lutas que a vida venceu por pontos, e me esqueço completamente que gente como eu, no fim, acaba saindo mais cedo de bares, de brigas e de amores para não pagar a conta. Isso eu poderia ter dito a ela. Mas não disse.”

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios
Marçal Aquino
Companhia das Letras, 2005

_Julio Bernardo [no texto apresentando seu livro] fala que você transforma maternidade em arte, assim como Sócrates dava passes de calcanhar. E no futebol, dá pra se comparar ao Doutor?

Talvez só no sonho de ver um futebol democrático e usado como instrumento transformador. Mas na habilidade para o futebol, minha nossa senhora. Eu até me arrisco e não jogo de todo mal, mas jamais me compararia ao meu grande ídolo corinthiano. Dentro e fora do campo.

_Você costuma dizer que tem nome de velha. O que seus pais falam sobre isso?

Eu transformei isso em uma piada, adoro meu nome. Quando era pequenina, eu sofria, queria um nome comum. Não me conformava em ter sido batizada Leonor, lembro que queria chamar Ana. Mas meu nome é uma homenagem a minha avó que não conheci e que tenho grandes afinidades. Meus pais sempre me contaram isso até eu aprender que era um nome quase exclusivo, praticamente só meu. Eles sabem que eu brinco com isso, então levam na brincadeira também.

_Um churrasco com cerveja gelada (sem TV) ou um jogo do Corinthians no estádio (sem cerveja)?

Se for um jogo do Corinthians no Pacaembu, não importa a falta de cerveja, o calor, ou a chuva. Não troco por nada. Agora, nessas novas arenas e frias, está difícil não preferir um churrasco com cerveja gelada (e o jogo do Corinthians no radinho).

_Diga aí um jogo do Corinthians inesquecível. E um “esquecível”. 

Posso viver mil anos e nunca vou esquecer da final da Libertadores na Bombonera, em 2012. A primeira vez que pisei no estádio do Boca foi em um jogo deles, em uma viagem turística para Buenos Aires. Foi em 2007 e pensei que queria muito ver um jogo do Corinthians lá. Calhou de ser uma final de Libertadores, a nossa primeira, a invicta. E eu fui. Faltou só o Lucas do meu lado.

E esquecível? Quando o Corinthians foi eliminado pelo Palmeiras na Libertadores de 1999. Não gosto nem de lembrar.

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Lançamento do ENEAOTIL em São Paulo

Eneaotil_ConviteLancamento_SPNo próximo dia 9 de março, uma quinta-feira, Leonor Macedo estará na Livraria da Vila (Fradique Coutinho) em São Paulo, autografando seu livro ENEAOTIL: mãe é pra quem a gente pode contar tudo, mas não conta nada. O livro reúne textos publicados no blog ENEAOTIL e outros inéditos sobre a vida de uma mãe solo – e ainda por cima aos 19 anos. Apesar das dificuldades, Leonor Macedo não perdeu o bom humor. Como ela lembra, começou a escrever sobre seu filho, o Lucas, quando ele tinha menos de dois anos e ela pouco mais de 20. “Estava descobrindo o mundo junto com ele. Jovem, mãe solteira, saindo das minhas próprias fraldas e trocando as fraldas de alguém”. Essa falta de experiência consegue nos fazer rir e chorar às vezes num mesmo texto. Como aponta Renata Corrêa no prefácio, este livro é um “não manual, cheio de humor, afeto, acolhimento. Um abraço gostoso de vai ficar tudo bem”.

Escrevia, imprimia e guardava em casa. Depois decidiu publicar um blog – o ENEAOTIL – com os relatos e foi quando percebeu que não estava só. Ao compartilhar suas histórias ajudava outras mulheres como ela. Com um texto leve, Leonor, corintiana roxa, conta as aventuras (suas e do Lucas) com um olhar de mãe preocupada, com medo, mas principalmente com muito amor pela sua cria. Ou como escreve Julio Bernardo na orelha, Leonor “transforma maternidade em arte, de maneira tão única quanto Doutor Sócrates dava seus inesquecíveis passes de calcanhar”.

Lucas, hoje com 15 anos, também participa do livro para além do personagem. É autor do desenho de capa, feito quando tinha três anos, e assina a quarta capa, onde diz que não se sentia envergonhado com a exposição de suas façanhas e que “o livro não é feito só das histórias. Ele é feito de muito amor e carinho que compartilhamos um pelo outro, além de muita camaradagem”.

Este é o livro de “uma mulher que jogou fora o roteiro e escolheu a si mesma como modelo”, lembra Renata no prefácio. E se a ideia original era um dia juntar todas as histórias que escreveu e entregar para o Lucas no seu aniversário de 21 anos, o presente chega com alguma antecedência.

_Sobre a autora

Leonor Macedo é mãe do Lucas e corintiana em tempo integral. Nas horas vagas é jornalista, roteirista e mantém o site Vila Pompeia, sobre o bairro onde vive. Como tem uma péssima memória, criou o blog ENEAOTIL contando suas peripécias com Lucas porque tinha medo de esquecer e não saber contar para ele sua própria história.

_Lançamento

DIA: 9 de março (quinta-feira)
HORÁRIO: 18:30h
LOCAL: Livraria da Vila
Rua Fradique Coutinho, 915
Vila Madalena – São Paulo-SP

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Coração fora do corpo

Um dia teu filho é pequeno e nem alcança a maçaneta, muito menos o botão do 5º andar no elevador. Ele fica na ponta dos pés, ele se esforça, ele tenta, mas não vai a lugar algum sem você. No outro dia ele já faz o bigode, dá um tapa na tua bunda e diz que está saindo com os amigos.
Tua vontade é dizer ENE-A-O-TIL. Não, não e não. Na-na-ni-na-não. Que história é essa de sair sozinho? Quantos anos você acha que tem? Trinta?
Mas você sorri, diz que tudo bem, pede para ele dar notícias e não dar mais tapa na sua bunda. Implora para ele dar notícias, na verdade. E quando ele abre a porta, aperta o botão do elevador e cumprimenta os amigos na rua com aqueles soquinhos idiotas (você está vendo tudo da janela), só te resta torcer para ele voltar logo.

***

Quando eu tinha lá meus 12 anos, eu já ia sozinha para a escola, já andava de ônibus pela cidade, já ficava até tarde brincando na rua ou conversando com meus amigos na calçada. Já ia à padaria, ao shopping e ao cinema sozinha. Quando eu tinha 12 anos, minha mãe me liberou para viajar com a família de uma amiga, de carro, pelo interior do Paraná.
E eu queria mais! Aos 12 anos, eu já pedia para ficar até mais tarde nas festinhas. Já achava que meus pais não precisavam mais me buscar nos lugares (olha o mico!) e já fazia planos para ir a shows de rock do outro lado da cidade.
Não pensava em corações apertados e unhas roídas de preocupação, só pensava em ser cada dia mais livre. Crescer significava liberdade (só anos depois eu percebi que crescer significava contas para pagar).
Também não pensava em ser mãe, mas lembro que meus primeiros pensamentos em relação a isso foram de que eu daria toda a liberdade do mundo aos meus filhos.
– Eles vão poder ficar até tarde nas festinhas!
– Eles vão poder ir a shows de rock sozinhos com 7 anos!
– Eles vão poder voltar pra casa sozinhos de madrugada!
– Eles vão poder viajar pela América do Sul aos 5 anos, e sozinhos, se eles quiserem!
Aí eu pari.

***

Veja bem, não sou uma mãe neurótica. Meu filho não é proibido de ir aos lugares sozinho e aos 12 vai poder pegar ônibus para ir à escola e ficar até mais tarde nas festinhas tentando dar o primeiro beijo. Mas não é tão tranquilo passar por esse momento de deixá-lo ir.
Quando ele foi sozinho pela primeira vez ao mercado, no ano passado, fiquei com aquela sensação de que o André Marques* tinha sentado em cima do meu peito e acho que só consegui respirar quando ele voltou. Dia desses nós estávamos chegando da escola e ele me perguntou:
– Aos 15, vou poder chegar em casa umas 2h, 3h da manhã, né?
Me imaginei completamente careca, cheia de olheiras e alcoólatra. Respirei fundo e disse:
– Vamos ver…
Ser mãe é isso mesmo: é uma briga constante entre emoção e razão, a vontade egoísta de não deixá-lo ir e a lembrança da vida que você queria ter quando tinha a idade dele. Então, provavelmente, eu deixe e finja que estou dormindo (depois de tomar umas e outras) quando ele chegar às 2h (às 3h, nem pensar!).

*antes da cirurgia bariátrica.

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Nossos e-books estão disponíveis na Amazon, confira!

“O novo carioca”, “Pedrinhas miudinhas” e “Perca amigos, pergunte-me como” são alguns dos títulos de nossa editora disponíveis em versão eBook na Amazon.com.br. Além destes, é possível adquirir por apenas R$1,99 os livros digitais que integram a coleção “Pra ler em pé”.
“O meu lugar” e “SMH 2016: Removals in the Olympic city”, nossa versão em inglês do livro “SMH 2016: Remoções na Cidade olímplica” estão disponíveis gratuitamente para os assinantes do pacote Kindle Unlimited. Se esse for seu caso, não deixe fazer o download. Cópias físicas podem ser adquiridas no próprio site da Amazon ou em nossa loja.

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Mórula lança coleção com livros de Aldir Blanc

No ano em que Aldir Blanc, um dos principais letristas da música brasileira, completa 70 anos, a Mórula presta sua homenagem levando ao público um apanhado de sua obra em prosa. A coleção Aldir 70 reúne novas edições de livros já clássicos do escritor e duas obras inéditas.

Uma nova edição de “Rua dos Artistas e arredores” (lançado em 1978 pela Codecri) e o inédito “O gabinete do doutor Blanc: sobre jazz, literatura e outros improvisos” abrem a coleção. Completam a série uma nova edição de “Porta de Tinturaria” (Codecri, 1981), uma edição ampliada de “Vila Isabel, inventário da infância” (Relume Dumará, 2000) e um livro com textos publicados em jornais e revistas nos últimos 10 anos.

 

 

 

Capa da edição da Codecri do livro "Rua dos Artistas e arredores"
Capa da edição da Codecri do livro “Rua dos Artistas e arredores”

 

Estudo de capa para o livro "O gabinete do Doutor Blanc"
Estudo de capa para o livro “O gabinete do Doutor Blanc”

“Rua do Artistas e arredores” reúne textos publicados no semanário O Pasquim a partir da primeira contribuição de Aldir, no Natal de 1975, com a crônica Fimose de Natal. Selecionados e organizados pelo próprio autor, contam histórias de personagens que habitaram sua Vila Isabel, precisamente a Rua dos Artistas, onde viveu até os 11 anos. A nova edição conta com quarta capa escrita por Jaguar e uma cronologia detalhada da vida do autor.

Já “O gabinete do doutor Blanc: sobre jazz, literatura e outros improvisos” traz textos inéditos em livro e revela um lado menos conhecido do autor: sua paixão por jazz e livros policiais. Retratados em crônicas (ou “improvisos”), foram publicados originalmente na extinta revista virtual Notícia e Opinião, o No Ponto.  Editor de cultura da revista à época, Paulo Roberto Pires abre o livro com um ensaio sobre a produção dos textos que recebia e levanta a dúvida: “mas, afinal, o que publicávamos semanalmente? Resenha certamente não era. Crônica? Um pouco, às vezes. Muito sofisticados para serem rotulados ‘conversas’, demasiado informais para ganharem a etiqueta de ‘ensaios’, esses textos são mesmo improvisos”. Luis Fernando Verissimo assina a quarta capa do livro e resume a relação do escritor com o gênero musical: “Aldir não é apenas um ouvinte de jazz. É um erudito na matéria, embora disfarce sua erudição com a leveza e a criatividade que se espera de qualquer texto seu, musicado ou não”.

Para deixar a edição ainda mais caprichada, as capas são ilustradas por Allan Sieber. Sobre essa empreitada e o autor, é sintético: “Aldir Blanc é um gênio recluso. Eu sou um idiota recluso. Nos encontramos na reclusão. Uma honra fazer uma capa para um mito”.

O lançamento da coleção Aldir 70 será no dia 19 de novembro, às 14h30, no Al-Fárábi (Rua do Rosário, 30), Rio de Janeiro. A pré-venda, no site da Mórula, dos dois primeiros volumes da coleção começa amanhã, dia 10 de novembro.

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O tesouro de Aldir Blanc

Para celebrar o lançamento da coleção Aldir 70, o jornalista e escritor Luis Pimentel nos presenteou com essa crônica inédita sobre Aldir Blanc. Aproveitem!

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Aldir e o tesouro escondido na caverna da infância

Luis Pimentel

Eu vou pro Estácio, mermão! Pensa que é fácil? Né não.
No tempo do lotação já era ruim, hoje então…

O samba foi gravado em 1996, no disco que comemorava os 50 anos do compositor. Quase meio século antes dessa data, ainda no tempo do lotação, o futuro grande cronista das ruas e dos bairros do Rio de Janeiro e poeta consagrado da MPB saboreava a inocência no bom e velho Estácio de Sá. Viveu até os quatro ou cinco anos na Rua Santos Rodrigues, uma transversal (do tempo?) da lendária Maia de Lacerda – onde nasceu, se criou e até hoje (2010) vive o não menos lendário Alceu, que é seu pai e também o Ceceu Rico de suas crônicas. Entre o Estácio, Vila Isabel, a Tijuca e a Muda correm, sempre margeando o Rio Maracanã, as veias de Aldir Blanc.

Há quem não se importe, mas a Zona Norte
É feito cigana, lendo a minha sorte.

Chegando aos cinco ou seis anos de idade, Aldir chegava também à Vila, de mãos dadas com a mãe, Dona Arlete, e com a mãe da mãe, Vovó Noêmia. À frente, indefectível maço de Lincoln num bolso e programa onde lia a sorte dos cavalinhos de corrida, o intrépido Seu Alceu. Tempos depois, o filho tentou esclarecer algumas datas e fatos daqueles dias, para um inventário de infância que escreveu em homenagem ao bairro do Noel Rosa, ouviu do pai a seguinte resposta:

– Como é que, a essa altura do campeonato, você quer que eu me lembre de uma merda dessas?!

Eu vim da Maia Lacerda
E essa merda faz parte de mim.
Taí minha herança, e dela não abro mão…

No bairro poético e boêmio, o menino foi morar na Rua dos Artistas, estava em casa. E numa casa com quintal cheio de árvores frutíferas – pertinho da morada do mestre Benedito Lacerda:

– Da minha casa, eu ouvia a flauta tocada na casa dele – contou, em depoimento ao jornalista Roberto M. Moura, um dos amigos mais queridos e perdidos, como Paulo Emílio Costa Leite, Marco Aurélio Bagra e mais alguns.

O quintal servia para reunir amigos e parentes em torno das panelas e dos pratos, do radinho de pilha contando o jogo do Vasco, então Expresso da Vitória (“Sabará na ponta direita do templo…”), das garrafas, muitas garrafas.

A poesia já morava ali, à sombra das goiabeiras, laranjeiras, bananeiras, mangueiras, dos pés de abiu, sapoti, limões-bravos; a boemia só veio em seguida.

Vim do botequim,
Chamaram por mim
Na manhã…

A infância na Vila, que o poeta descreve como uma febre (“Vila Isabel é a febre de viver, que não passará enquanto eu respirar”) – pelo menos até os 13 ou 14 anos, quando voltou a morar no Estácio – desvenda o tesouro da caverna na obra do compositor. Tá quase tudo lá, vem quase tudo de lá, e nada se perdeu ou foi desperdiçado: o “asmático rondando pelo corredor”, as hemoptises, os palavrões, as brigas e confraternizações em família, o amor desgovernado pedindo cama na rua, os feudos, as frases de efeito, as farsas e o futebol, os funcionários de plantão e os desempregados por opção, dentes estragados, os butecos com as declarações mais sublimes ou os desabafos mais escrotos:

Piada suja, bofetão na cara,
E essa vontade de soltar um barro.

Pensa que Aldir Blanc viveu só de brisa, melodia e poesia? Nada disto. Teve estudo, tudo certinho. Primário na Escola Municipal Barão Homem de Mello, ginásio no tradicionalíssimo Colégio São José, curso superior na Faculdade de Medicina e Cirurgia, com estágio no Hospital Psiquiátrico Engenho de Dentro – como médico, claro. De poeta e de louco, ele tem muito mais do primeiro.

A porcelana e o alabastro na pele que eu vou beijar
O escuro arás do astro na boca que me afogar
Os veios que há no mármore nos seios de Conceição
E desafeto mais paixão e porque sim e porque não.

Tirem suas conclusões.

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PTSC #23

Essa foto jamais poderá ser usada para ofender a imagem do fotografado, atentar contra sua honra e dignidade. Seu uso destina-se a fins jornalísticos, informativos, educativos, artísticos e em campanhas humanitárias. Proibida a utilização sem autorização do autor. Para usa-la, entre em contato com lbaltar@gmail.com. Essa foto está resguardada por direitos autorais. Rio de Janeiro xx/xx/2014.
Luiz Baltar, autorretrato. Foto: cortesia.


Fotógrafo documentarista formado pela Escola de Fotógrafos Populares do Observatório de Favelas e pela Escola de Belas Artes da UFRJ,
Luiz Baltar desde 2009 registra o cotidiano, o processo de remoções forçadas e as ocupações militares em diversas favelas cariocas. Vencedor em 2016 do prêmio de fotografia da Fundação Conrado Wessel com o projeto “Fluxos”, Baltar desenvolve documentações sobre o direito à cidade, realiza trabalhos autorais no campo da fotografia contemporânea e participa do coletivo “Favela em Foco e dos projetos “Tem Morador e “Folia de Imagens. O fotógrafo é também autor das imagens que integram o livro “SMH 2016: Remoções no Rio de Janeiro Olímpico, editado pela Mórula. Com 49 festas de São Jorge comemoradas, além da premiação com o “Fluxos” recebeu o Prêmio Brasil de Fotografia e Melhor Portfólio do FotoRio 2015.

 

Com vocês nosso 23º ser complexo.

 

1_Como retratar remoções e ocupações militares em favelas respeitando os que mais sofrem com essas ações – os moradores?

É preciso não só ter empatia com os moradores e o território, mas também reconhecimento por quem está lutando para resistir e reinventar maneiras de viver apesar de tantas violações. Comecei fotografando como testemunha de momentos que não teriam visibilidade ou seriam esquecidos se não tivessem câmeras registrando e acabei como apoiador e amigo de pessoas que admiro muito.

UM LIVRO

“O que a arte pode fazer, eventualmente, é reenviar as pessoas para algo melhor, para uma visão mais sagaz e mais larga do mundo. O que a arte pode fazer é, de certa forma, mudar as hierarquias sensíveis do pensamento, dando as mesmas experiências a pessoas diferentes, que vivem em universos sensíveis muito diferentes.”

O Espectador Emancipado
Jacques Rancière
Orfeu Negro, 2010

2_Você fotografa do ônibus o seu trajeto, que no dia a dia se repete. As imagens desse trajeto também se repetem?

As imagens nunca se repetem. A cidade que observo do ônibus se transforma no mesmo ritmo das cenas que passam pela janela. Mesmo assim são poucos os passageiros que percebem a diversidade e riqueza visual da cidade durante a viagem.

A paisagem da Zona Norte é pouco notada, e por isso não representada, apesar de ser vista diariamente por um número enorme de pessoas que circulam por suas vias. Democratizar a cidade passa, também, por disputar sua representação, ressignificar a experiência de quem circula por ela, atribuir importância às narrativas periféricas e salvar do esquecimento uma memória ainda não registrada.

3_O que importa mais, a qualidade da câmera ou o olhar do fotógrafo?

Sempre o olhar. A melhor câmera é aquela que temos na mão e na ausência de uma é através do olhar que vamos construindo nosso repertório de narrativas e imagens.

4_Algumas imagens que produz dão a impressão de que são “fotografias em movimento”. Como é esse processo ou técnica?

Tenho uma formação em gravura anterior à fotografia, pela Escola de Belas Artes (UFRJ), e trago essa bagagem para o meu trabalho autoral. Com a câmera ou com o celular vou captando imagens, às vezes até de forma aleatória, sem me preocupar com enquadramento ou composição.

É no computador, no processo de edição que as imagens vão ganhar forma e sentido. As experimentações visuais vão sendo incorporadas. Junto duas, três ou mais fotos em múltiplos ângulos. Reinvento, reforço, excluo, repito e me aproprio de imprevistos que surgirem durante o processo. Quebra, fragmentação e reconstrução. As imagens capturadas são divididas, achatadas, alongadas e repetidas no formato de longos e sucessivos instantâneos. É um processo que costuma ser chamado de fotografia expandida. Procuro uma linguagem próxima da gravura com estética de processos artesanais como o pinhole.

5_No tempo livre o que um fotógrafo faz, além de fotografar?

Vê o trabalho de outros fotógrafos, lê sobre fotografia, fala de fotografia, pensa e sonha com fotografias o tempo todo.

 

 

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Confira a exposição Quarup

A mórula desenvolveu, montou e fez o material de divulgação da exposição Quarup, de Antônio Callado. A exposição ficará na Galeria Arte e Literatura, da Biblioteca Estação Leitura, localizada na estação Central do Metrô Rio, de 26 de julho a 26 de setembro.

Quarup – obra prima de Antônio Callado e marco da literatura brasileira – se manteve atual mesmo após cinquenta e um anos de seu lançamento. A exposição da obra, que retrata o preconceito e o descaso contra os indígenas e sua dizimação em em nome de interesses questionáveis, serve para trazer à tona a discussão sobre a realidade vivida pelos indígenas nos dias atuais e também como homenagem ao centenário de Antônio Callado, romancista, jornalista, biógrafo e teatrólogo.

Durante sua permanência, o público visitante poderá assistir e participar de atividades coordenadas do Projeto Vivências Lúdico-Literárias, Oficinas de Arte-Educação para crianças e jovens e também voltadas para instituições educacionais e sociais.

Abaixo, algumas fotos da mostra:

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